Determinação e aceitação

Embora meu assunto predileto sejam os livros, hoje escrevo sobre um tema diferente. Há cerca de três anos e meio, em razão de mudanças no trabalho, engordei cinco quilos no curto espaço de sete meses. O ganho de peso foi provocado por mudanças em minha rotina diária, principalmente pela mudança de turno.

Após consulta com endocrinologista e cardiologista, além de ser encaminhada a uma nutricionista, foi-me sugerido que, se possível, retomasse o antigo horário de trabalho, a fim de regular a rotina alimentar e de exercícios. Desde então, busco melhorar meus hábitos. Embora tenha adotado uma alimentação razoavelmente balanceada, ainda padeço com a compulsão por doces. Travo batalha diária com o desejo por brigadeiros e brownies. A atividade física, porém, tem sido o maior desafio.

Tenho um primo que é triatleta. Em festa recente, ele comentava, enquanto devorava um farto prato de bolo confeitado: “Eu adoro comer!” No ano passado, já havia notado como ele se deliciava com os docinhos no aniversário de nossa avó. Não tenho a pretensão de me comparar com ele, que participa de competições do Ironman e consome todas aquelas calorias em menos de 24 horas.

Eu não sou triatleta. Não sou nem meio-atleta. Provavelmente terei sempre uma relação difícil com o esporte. Contudo, embora a atividade física não seja realmente uma fonte de alegria, preciso recordar as recomendações do cardiologista, que apontou as principais causas de problemas cardiológicos: 1. herança genética; 2. cigarro; 3. obesidade; 4. stress; 5. sedentarismo. Quanto ao componente hereditário, nada posso fazer. Não fumo, nunca fumei e não convivo com fumantes. Tenho peso normal. Busco, cada vez mais, respirar diante dos problemas e reduzir a forte carga de stress que nos acompanha nesse mundo contemporâneo. Resta a regularidade da atividade física como desafio a ser superado, já que subir escadas e dançar em casa parece não bastar.

Passei a ponderar sobre o desconforto com a minha atual forma física e essa obsessão por emagrecer, uma vez que o meu IMC está dentro da normalidade e ainda visto tamanho 40. Se eu lidasse com alguma espécie de problema de saúde relacionado a peso, ou mesmo se estivesse acima do peso, seria compreensível que o emagrecimento fosse uma de minhas principais preocupações. Não sendo o caso, por que, então, venho aceitando essa obsessão que toma espaço em minha vida? Como escuto muita conversa sobre o ganho de peso a partir dos 40 anos, fiquei pensando se o tal desconforto não deriva, ainda que inconscientemente, da resistência à passagem do tempo ou do apego a uma determinada fase da vida.

O tema me impele a refletir sobre meus valores e o quanto permito que influências externas afetem minha percepção sobre quem realmente sou. Qual é a medida de equilíbrio entre determinação e aceitação? Melhor ainda: é justificável o dispêndio de tanta energia, física e mental em prol de expectativas alheias? Tais expectativas são aceitáveis?

Não é incomum confundir aceitação com conformismo e determinação com teimosia, embora sejam conceitos distintos. Ao contrário do que pode acontecer quando apenas nos conformamos com alguma coisa, não é possível aceitar passivamente, pois toda aceitação é acolhimento e decorre de ponderação, reflexão e, finalmente, concordância com as motivações subjacentes ao ato ou ideia ao qual se adere. A determinação, por sua vez, só existe quando a persistência é questionada, o recuo é acolhido como possibilidade e as razões para a continuidade da escolha permanecem presentes. Aceitação sem meditação é mero conformismo. Determinação sem ponderação é teimosia.

Escolho manter-me determinada em relação à redução do açúcar e à regularidade da atividade física. Rejeito, porém, a adoção de padrões estéticos alheios. Existem temas mais relevantes com os quais ocupar a mente e assuntos mais interessantes para conversar do que a obsessão pela perseguição de um específico tipo físico. Por fim, decido aceitar com gratidão o corpo que tenho, porque é perfeito e saudável, com ele abraço as pessoas que amo e nele mora meu espírito, minha alma.

2 ideias sobre “Determinação e aceitação

  1. Olá Márcia!
    Eu não entendo essa obsessão das pessoas por um determinado tipo de beleza.
    Desde criança sempre fui mais cheinha que a minha irmã, mas me sentia bem com o meu corpo, que sempre achei bonito.
    Atualmente sigo uma dieta, pois aos setenta precisamos cuidar melhor da saúde, mas só pela saúde, porque sou satisfeita com o meu biotipo.
    As magrinhas também são bonitas, desde que se amem!
    Seu texto, como sempre, está ótimo!

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