Nascer de novo

Fui uma criança quieta. Não gostava de correrias, piculas e outras brincadeiras “energéticas”. Também não gostava de bonecas ou brincadeiras de casinha. Era uma menina diferente: gostava de ficar perto de adultos. Apesar das brincadeiras com primos e amigos de minha idade, as melhores recordações de minha infância estão relacionadas aos adultos com quem convivia: avós, bisavós, tios, amigos dos meus pais… Hoje muitos deles já partiram e sinto saudades.

Sempre havia crianças na escola e na vizinhança, mas eu preferia ficar em casa, ouvindo música, vendo filmes, lendo meus livrinhos, acompanhando a rotina doméstica, estudando… Fui também uma menina aplicada nos estudos. Aliás, eu adorava estudar. Sentia imenso prazer em trazer para os meus pais um lindo boletim de notas altas e, muito mais do que isso, adorava aprender. Empolgava-me com muitas disciplinas, mas tinha especial paixão por história, literatura, matemática e física. Parecem interesses díspares, mas, a bem da verdade, são paixões que permanecem intactas. Embora a minha profissão não guarde relação com as ciências exatas, por vezes eu me pego pensando em física e matemática, principalmente quando estou encantada com a beleza da natureza. Já em relação ao meu interesse por história, se, em tempos de estudante, interessava-me em estudar os eventos passados, como episódios de um livro ou novelinha, hoje são comuns os momentos em que me sinto profundamente emocionada por estar “vivendo” a história – embora tantas vezes ela não seja nem um pouco bonita ou alegre.

E tem a literatura. O meu interesse por livros está estreitamente relacionado com os hábitos de minha família. Não venho de uma família de intelectuais, mas de gente simples, amante das artes em geral. A minha mãe, por exemplo, embora estivesse sempre às voltas com responsabilidades com os filhos e a casa, sempre encontrou tempo para ler. Trata-se de um interesse comum a avós e tios. Em momentos de especial inspiração, o meu avô materno, Joubert, nos brindava com emocionantes saraus de poesia, em que declamava os versos de seus poetas favoritos, Castro Alves e Catulo da Paixão Cearense. Minha avó Peró, por sua vez, falava animada sobre os romances que lia na juventude e escrevia pequenas peças que nós, netos, encenávamos nas festas familiares. A minha tia-avó Cota, que aparentava uma alma menos artística, cantava antigas canções de Dolores Duran e Lupiscínio Rodrigues e emocionava-se profundamente com as poesias. Seja por conta da profundidade de sua voz, da emoção que vinha de suas interpretações, ou de sua história pessoal trágica e triste, a minha tia-avó Cota foi, inconscientemente, uma grande cantora de blues. É possível que eu tenha sido a única fã de seu talento, mas é nela que penso todas as vezes em que ouço e me emociono com Nina Simone ou Aretha Franklin. É engraçado que tenham se passado tantos anos sem que eu compreendesse ter sido ela a origem de minha conexão com o blues.

Vieram novas gerações e novos talentos. Um grande contista ainda não publicado (Joubert Filho), um poeta arrebatador (Fernando Pinto), grandes instrumentistas e cantores…  À exceção de meu irmão, que seguiu carreira acadêmica musical, nenhum outro descendente de Joubert e Peró abraçou a arte como profissão. Somos artistas amadores, deslumbrados e apaixonados pelo ato de criar. Vovó Perolina, beirando os 94 anos e, infelizmente privada da audição, prossegue febrilmente escrevendo seus poemas, desenhando e pintando paisagens. Já desisti de conter as lágrimas ao ouvir meu tio Fernando Pinto declamando seu poema “Cas de eu”. E seguimos assim. Somos uma família numerosa. Atualmente acompanho, deslumbrada e orgulhosa, a evolução de minha filha, escritora em formação.

E por que escrevemos? Outro dia, meu amigo Luiz Goulart falava sobre a rotina necessária para escrever. Mencionava coisas como estabelecer um horário para escrever todos os dias, independentemente de inspiração, profissionalmente. Já li sobre isso e sei que ele tem razão. Se eu tivesse essa disciplina, certamente não falharia com as publicações de domingo, por conta de contratempos. Teria material já elaborado, com mera pendência de revisão. Só que não sou profissional. Quando se trata de escrever, sou completamente antiprofissional, mas invejo meus amigos Luiz Goulart e Freitas Junior, que escrevem regularmente.

Eu preciso de inspiração. É certo que ela costuma vir como uma avalanche, uma grande onda, um tsunami. A inspiração vem num transe e a criação pode, por vezes, trazer à tona sentimentos insuspeitos ou há muitos soterrados e nem sempre agradáveis. Gosto de escrever ouvindo música. Hoje, por exemplo, comecei ouvindo Frejat, passei por Nando Reis e Ana Cañas e estou, agora, escutando Nina Simone. Em certos dias, só quero saber de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Ou apenas sonatas e sinfonias. Mas nada como o blues para fazer aflorar as emoções.

Em tempos de colégio aprendi a amar a poesia. Tive muitos professores maravilhosos. Lembro com especial carinho de Madalena, nossa professora de literatura. Com ela, a poesia brasileira do século XX ganhava vida. No dia seguinte à morte de Drummond, Madalena, entre lágrimas, leu “Amor antigo”:

“O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda a parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.”

Embora os interesses artísticos venham do ramo materno de minha família, as conexões alcançavam todos. Por exemplo, sempre associei a figura de Drummond ao meu avô paterno, José. Talvez por conta da grande semelhança física que pensava existir entre eles: idade parecida, careca, cabelos brancos ralos e finos, óculos, magreza. Mas não. Havia um segredo em meu coração. Quando era menina, eu acreditava que o poema “José” havia sido escrito para meu avô. Naquele tempo, tocava na rádio uma versão musical do poema, interpretada por Paulo Diniz.

E cada vez que ouvia os versos (“E agora, José?”), corria de onde estivesse para escutar atentamente a canção, embora não entendesse tudo que era dito. Para mim, era a história de meu avô que era contada. “O que é teogonia, meu Deus?”, pensava, criança preocupada. Perdendo a inocência infantil, descobri que meu avô não era, nem de longe, a inspiração do poeta.

Drummond continuou a ser um dos meus poetas favoritos e os seus versos permanecem como a mais perfeita descrição de meus sentimentos. Repetindo o pensamento infantil, hoje vou imaginar que o poema “Nascer de novo” foi escrito para descrever meu sentimento por meu amado Nivaldo:

“Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.
Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?
Eis que um segundo nascimento,
não adivinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.

A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.”

3 ideias sobre “Nascer de novo

  1. Márcia,
    Me emocionei recordando sua infância…
    Você foi a filhinha que toda mãe pede a Deus: Um amor de menina… era uma gracinha, toda magrinha, com os cabelos louros e encaracolados. Parecia uma bonequinha. Eu adorava fazer suas roupinhas!
    Tão meiga… amorosa… Além de ser muito inteligente e estudiosa. Eu ficava sem graça com tantos elogios que recebia das professoras diante de outras mães. Eu ficava tímida, mas no fundo estava era muito orgulhosa e feliz com os progressos da minha pequena!
    Senti saudades de meu pai, de Cota e de tantos que já nos deixaram. Na verdade eles estão bem presentes nas minhas lembranças.
    Realmente, meu pai era fã de Catulo e de Castro Alves. Eu ficava muito emocionada quando ele recitava NAVIO NEGREIRO (entre outros) “Deus, oh Deus, onde está que não respondes?…”
    Minha tia Cota tinha uma voz bonita, gostava de cantar.
    Minha mãe sempre gostou e continua gostando de arte. Quando era mais jovem escrevia e dirigia peças. ( ela leva jeito)
    Eu adoro literatura!
    Acho que toda a família gosta um pouquinho de arte ou literatura.
    Seu texto está muito bonito e emocionante.
    Beijo!

  2. Muito bonito o texto! Muitas lembranças agradáveis! Você lembrou como nossa família tem tendência para as artes e as letras.Não sei quando Beto toma coragem para publicar os contos dele. Já deve ter um bom volume de escritos.
    Um abraço carinhoso da tia Terezinha.

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