A minha olimpíada literária

Tomando emprestado o espírito olímpico, planejei uma maratona literária no mês de agosto (http://marcia.sampaio.me/2016/08/maratona-de-agosto/). Vou logo adiantando que não completei a prova, pois não li “Paris é uma festa”, nem reli “São Bernardo”. Ficaram para depois. De qualquer modo, valeu a pena. Assim, em agosto foram seis livros, que comentarei de forma breve:

“Pequenos terremotos”, de Jennifer Weiner, foi um livro recomendado por minha amiga Ana Carolina. Animadas, mantemos um pequeno clube do livro, trocando frequentes recomendações literárias. E o tema desse livro em especial me toca fundo. As vidas de quatro mulheres se cruzam no momento mais especial de suas vidas: a chegada de seus filhos. Enquanto revela os desafios e dificuldades enfrentados por cada uma das personagens, Jennifer Weiner expõe a universalidade dos dilemas femininos. As mães do livro compartilham das dificuldades da mulher moderna, divididas entre a profissão e o tempo dedicado aos filhos, lidando com reveses financeiros e conjugais, enquanto zelam pelo desenvolvimento e felicidade dos filhos. Uma coisa na história que me agradou de modo especial foi a amizade sincera que se desenvolveu entre elas. Apesar das opiniões diversas que costumo ouvir, eu acredito na amizade sincera entre mulheres. Acredito na solidariedade e no mútuo apoio. Na verdade, sinto muito pena de quem não tem uma boa amiga, ou várias.

“A costureira de Dachau”, de Mary Chamberlain, foi uma das escolhas aleatórias que costumo fazer no catálogo da Amazon. Não pretendo estragar a surpresa para aqueles que lerão o livro, mas posso avisar que se trata de uma história dramática em tempos de guerra, com uma protagonista extremamente ingênua. Eu não gostei do livro, embora seja uma daquelas histórias cheias de reviravoltas, atravessando diversas cidades, com crimes, julgamentos etc etc. Como diz Rafael Alvarenga, é muito drama, muita miséria numa história só… Não, serei sincera. Não foi essa a razão de não ter gostado do livro. Eu gosto de tantas histórias sombrias que essa não é uma justificativa aceitável. Talvez eu tenha perdido a paciência com a personagem, mas ela não é detestável a ponto de se tornar memorável. Essa é uma questão importante: um bom livro precisa de, no mínimo, um personagem forte, seja ela bom ou mau. Eu não consegui nem sentir pena da personagem, embora ela fosse uma coitada. É… Talvez, no momento da leitura, eu estivesse num estado de espírito Darth Vader…

“Número zero”, de Umberto Eco. Amei esse livro, de leitura fluida e gostosa, que mostra os bastidores do mau jornalismo. Aliás, nunca li nada escrito por Umberto Eco que fosse menos do que perfeito. Não vou falar da história, excelente, nem do estilo, impecável. Vou aproveitar a oportunidade para compartilhar o prazer extraído da leitura, através de alguns trechos repletos de deliciosa ironia que copiei e transcrevo:

“Não há sucesso maior que o encontro agradável entre dois fracassos.”

(…)

“Calculem que Rockefeller e Agnelli, ou o presidente dos Estados Unidos, não precisam de celular, pois têm carradas de secretários e secretárias cuidando deles. Portanto, daqui a pouco as pessoas perceberão que celular só é usado por gente de meia-tigela, pobres que precisam ser localizados pelo banco para dizer que a conta deles está no vermelho, ou pelo chefe que controla o que estão fazendo.”

(…)

“O que a alta sociedade faz não nos interessa. Precisamos pensar em leitores que ainda têm medo de palavrões.”

(…)

“Existe uma ótima palavra alemã, Schadenfreude, satisfação pessoal com a infelicidade alheia.”

E a mais inacreditável de todas:

“Me vem à mente aquela piadinha sobre Hitler, também exilado na Argentina, que os neonazistas queriam convencer a voltar à cena para a reconquista do mundo, ele hesita e titubeia durante muito tempo, porque a idade conta até para ele, mas finalmente se decide e diz tudo bem, mas dessa vez… malvados, certo?”

O quarto livro do mês foi “Clube da luta”, de Chuck Pahlaniuk. Quando anunciei a lista dos livros que compunham a maratona, minha mãe avisou que havia detestado o filme baseado nesse livro. Não me surpreendi com a opinião dela. Embora leitora ávida, minha mãe é uma leitora sensível, a quem não caem bem histórias violentas. Engana-se, mãe. Não se trata apenas de violência, mas de uma espécie de transtorno dissociativo de personalidade. Ou, se preferir, sobre a crença em um amigo imaginário na vida adulta. Ou seja, um problema psiquiátrico (esquizofrenia?). Surgiram tantas teorias para explicar o livro que, a essa altura, cada um interpreta como bem deseja. Seja como for, como qualquer livro sobre distúrbios psiquiátricos, assusta. Aliás, nunca entendi o medo que as pessoas têm do sobrenatural. Temo mais a mente humana e, principalmente, a perda de seu controle.

O quinto livro do mês foi “Como curar um fanático”, de Amós Oz. Essa foi a leitura mais arrebatadora do mês. Amós Oz é, há alguns anos, um de meus autores favoritos. Nesse pequeno livro ele expõe a sua opinião sobre os conflitos entre Israel e Palestina. Suas ideias soam tão lúcidas que escolhi alguns trechos para transcrever:

“A única força no mundo capaz de conter e mesmo se sobrepor aos islamitas fanáticos são os muçulmanos moderados.”

(…)

“A fofoca também é uma filha da curiosidade. Mas a fofoca ama os clichês, que adora reiterar nossos preconceitos e nos assegurar de que tudo e todos continuam a ser a mesma coisa. A boa literatura faz o oposto da fofoca: ela nos conta algo que não sabíamos, sobre nós mesmos e sobre os outros. Ou algo que não queríamos saber.”

(…)

“Toda e cada vez que infligimos dor aos outros, sabemos o que estamos fazendo. (…) A dor é uma experiência democrática, até mesmo uma experiência igualitária. A dor não distingue entre o mais rico e o mais pobre, entre o mais poderoso e o mais submisso. Sempre que infligimos dor aos outros, não o fazemos a partir da ignorância, mas porque, ao que parece, deve haver algum gene malévolo em quase todos nós”.

(…)

“Tanto israelenses como árabes, de dois modos distintos, foram no passado vítimas da Europa: os árabes pelo colonialismo, o imperialismo, a exploração e a humilhação. Os judeus pela discriminação, perseguição, pelos pogroms  finalmente pelo pior genocídio sistemático da história”.

(…)

“Acredito que a síndrome de nossa época é a luta universal entre fanáticos, todos os tipo de fanáticos, e o resto de nós. Entre os que creem que seus fins justificam os meios, todos os meios, e o resto de nós que julga que a vida humana é um fim em si mesma.”

(…)

“O conflito israelo-palestino não é um filme do Velho Oeste. Não é a luta do bem contra o mal, é antes uma tragédia no mais antigo e mais preciso sentido da palavra: um choque entre o certo e o certo, um embate entre uma reivindicação muito poderosa, profunda e convincente, e  outra muito diferente mas não menos convincente, não menos poderosa, não menos humana.”

Por fim, o último livro do mês de agosto foi “Eu, robô”, de Isaac Asimov. Amei. Composto de vários contos e publicado no final de 1950, a obra poderia estar completamente ultrapassada. Mas, como acontece em toda ficção científica de qualidade, Asimov nos acena com muito mais do que tecnologia, sinalizando os aspectos éticos e metafísicos da relação entre seres humanos e robôs. Um livro para nerds e outros apaixonados por ciência. Como aconteceu com “Eu sou a lenda”, não assisti ao filme, o que foi uma excelente escolha, que libertou a imaginação das correias das imagens pré-visualizadas. Aliás, sempre penso ser melhor ler primeiro o livro antes de assistir às adaptações cinematográficas. E, invariavelmente, o livro é superior ao filme. Existem, é claro, alguns casos de filmes cujo impacto assemelha-se àquele provocado pela leitura, como é o caso de “Precisamos falar sobre Kevin” ou “Clube da luta”. Alguns livros deixaram uma impressão tão marcante que eu lamentei que tenham se transformado em filmes, apesar da alta qualidade das películas realizadas. Foi o caso de “Ensaio sobre a cegueira”. Dizem que J.D. Salinger jamais autorizou uma versão cinematográfica para “O apanhador no campo de centeio”. Qualquer que tenha sido a razão, gosto de pensar no livro como obra escrita e não visual.

Essa foi a minha Olimpíada literária. Vieram outros livros, que em breve apresentarei…

3 ideias sobre “A minha olimpíada literária

  1. Olá Márcia!
    Muito boa a sua olimpīada literária. MEDALHA DE OURO!
    Não me interesso em ler Clube da Luta, porque assisti ao filme e não gostei. Acho que não me encontrava em um bom estado de espírito, porque detestei!
    Não costumo assistir filmes baseados em livros que leio. Geralmente me decepciono. Faço uma exceção para Os Miseráveis. Foi um lindo musical, que fez justiça à obra de Vctor Hugo.
    Ótima a sua seleção. Vou ler alguns.
    Beijo!

  2. Concordo com Rui, você ganha medalha de ouro em qualquer competição literária. Nunca vi ninguém com tanta disposição para ler.
    Um abraço carinhoso da tia e fã Terezinha.

  3. Márcia, com relação a Humberto Eco, eu li O Nome da Rosa e gostei demais, tanto que tornei a assisti em diversas ocasiões! Achei o filme tão completo, com grandes atores, retratando o clima sombrio do mosteiro, que não me interessei em ler o livro.
    Ah, eu me interessei em ler Como Curar um Fanático, de Amós Oz, bem como pelos demais livros.
    Você ganhou a medalha de ouro literária!

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