Breve resenha

A maratona de livros de julho foi um sucesso. Como havia estabelecido uma meta, que, inicialmente considerei ambiciosa, tive de organizar meu tempo para poder me dedicar à leitura. Agora sei que ler cinco livros em um mês não é tanto assim, principalmente se considerar que consegui conciliar as leituras com os inúmeros compromissos sociais do mês de julho.

Por que me detenho nessas observações? Porque muitas vezes dizermos que não temos tempo para ler. Certamente há períodos de maior disponibilidade e outros em que o recurso mais escasso é o tempo. Mas o desejo de aproveitar um bom livro é o maior aliado. É o que nos torna criativos, encontrando brechas ao longo do dia. Eu, por exemplo, costumo acordar muito cedo, por volta de 05:00h, e ficar lendo até a hora de ir à academia, pouco antes das 07:00h. Quando volto da malhação, já não tenho tempo para ler, pois tenho responsabilidades domésticas para dar conta ou vou trabalhar pela manhã. Mas não abro mão de tomar o café da manhã lendo calmamente. Também leio à noite, quando a casa sossega e inicio os preparativos para o sono. Por fim, conto com os finais de semana, que, por mais movimentados que sejam, sempre rendem algum tempo livre.

Iniciei o mês de julho com a leitura de A caixa preta, de Amós Oz, fortemente recomendado por Rafael, que estagia conosco e compartilha o gosto por livros e filmes. Um professor e escritor aclamado recebe uma carta de sua ex-esposa, de quem se separara de forma absolutamente escandalosa. Esse é o ponto de partida para uma intensa troca de correspondência entre eles, e com o filho que tiveram em comum, o atual marido dela e o advogado do protagonista. A estrutura epistolar do texto nos revela, gradativamente, fatos, impressões e sentimentos de todos os envolvidos. E, permeando o texto, como sempre acontece nas obras de Oz, temos a história de Israel, a vida ali construída pelos judeus que chegaram desde muito antes do Holocausto. Paixão, amor, ódio, ciúme, despeito, fanatismo, interesses financeiros, todos estão entranhados nas missivas e telegramas trocados. E, à medida que a história é contada, toda a complexidade dos personagens é apresentada com cores vívidas.

Após, li Eu sou a lenda, de Richard Matheson. Eu não sou uma leitora de histórias de horror ou terror. Mas resolvi, a partir do mês de julho, mesclar os estilos, épocas e temas de minhas leituras. Pois bem, não me arrependi de ter escolhido esse livro. A história já foi levada às telas de cinema ao menos três vezes, sendo que, na última delas, contando com Will Smith no papel principal e a participação de Alice Braga. Assim, embora todo mundo já soubesse do que trata o livro, para mim foi surpresa, pois eu não havia assistido ao filme, principalmente por conta de meu desinteresse por vampiros, lobisomens e criaturas do além. Sou cética demais para me impressionar com narrativas sobrenaturais. Voltando ao livro, fiquei empolgada com a capacidade do autor de criar cenas de tensão, com pequenos ápices, seguidos de momentos de calmaria. E esse lento desenrolar leva ao final inescapável e que explica o título do romance.

O livro seguinte foi Elogio da madrasta, de Mario Vargas Llosa. A narrativa gira em torno do surgimento de um triângulo amoroso indubitavelmente doentio, que une uma mulher de 40 anos a um pré-adolescente, seu enteado. Desde o início, desenvolvi uma forte antipatia pela madrasta do título e que apenas cresceu à medida em que se tornaram mais intimas as suas relações com o garoto. A palavra que me veio à mente ao ler o livro foi pedofilia. E que outro nome poderia ser dado à relação de uma mulher adulta com um garoto? Vale lembrar que a protagonista está casada há pouquíssimo tempo com um homem adulto, apaixonado, carinhoso, dedicado, com grande apetite sexual. Tal circunstância dificulta a compreensão das razões da dupla traição (adultério e sedução do filho). As fantasias mais íntimas vividas por Don Rigoberto (o pai) e Lucrecia (a madrasta) são narradas de forma bem-humorada, mas o teor fortemente erótico apenas disfarça o real tema: a maldade, a dissimulação. Maldade e dissimulação de quem? Só ao final podemos saber. Até que ponto é possível confiar na inocência das pessoas?  Enfim, o livro guarda surpresas em seu desfecho que, em respeito a todos que desejam lê-lo, eu não irei revelar.

Passei ao quarto livro do mês: Senhor das moscas, de William Golding. Disse Stephen King que “Senhor das moscas significa o motivo pelo qual os romances existem, o que os torna indispensáveis”. Ao concluir a leitura, ainda fortemente impactada com as cenas que antecedem o desfecho, concordei com essa afirmativa. Sem querer estragar a surpresa para os leitores, é possível apresentar o enredo: os únicos sobreviventes de um acidente de avião são algumas crianças entre 6 e 12 anos, que se vêem sozinhas em uma ilha deserta, sem um adulto sequer. São muito jovens, sentem medo, fome, saudade. Logo no início um dos garotos mais velhos, Ralph, após ser escolhido como líder, tenta organizar a rotina das crianças e, depositando suas esperanças em um resgate, preocupa-se em manter uma fogueira acesa, como sinal para os navios que cruzem aquela rota. Ele conta com o apoio e sagazes contribuições de um garoto que se torna o seu único amigo, Porquinho, um menino gordinho, míope, mas muito inteligente e ponderado. Porquinho é, na verdade, o cérebro, enquanto Ralph possui o carisma. Ambos conservam intactos os valores aprendidos na civilização. A garotada perdida na ilha, acreditando na existência de monstro escondido na floresta, passa a sofrer com pesadelos. Surge, então, outra liderança, Jack, mais voltada para as necessidades imediatas de alimentação e que atrai muitos garotos em busca de aventuras. O embate entre os dois líderes torna-se acirrado e assustadoramente violento. A selvageria que toma conta da ilha assusta. Leitura para fazer pensar por muitos tempo…

Por fim, encerrei o mês de julho com O estrangeiro, de Albert Camus. Mersault, um homem de meia-idade que vive na Argélia, é uma pessoa diferente. Logo no início do livro, ele recebe um telegrama informando que sua mãe, que vivia em um asilo, havia falecido. Ele avisa ao chefe que precisa se ausentar, viaja para acompanhar o velório e o enterro mas, para supremo espanto de todos, não chora. No dia seguinte ao enterro, num sábado, ele vai à praia e inicia um romance, o que reforça a ideia de indiferença em relação à morte da mãe. A questão é que Mersault encara a vida como uma sucessão inexplicável de absurdos e, por isso, não esboça reações emocionais. Trata-se de um homem à margem da sociedade. Ao final da primeira parte do livro, Mersault mata um árabe e a história passa a girar principalmente em torno de seu julgamento. O motivo dado para o assassinato (“o sol”) é, sem dúvida, absurdo e inaceitável. O crime em si não chega a ser discutido pois a acusação foca na personalidade do réu, em sua atitude indiferente por ocasião do velório e enterro da mãe. Quem era Mersault?  Um empregado responsável, um bom vizinho e um filho zeloso que transferiu a mãe para uma casa de repouso mantida pelo Estado após constatar que não tinha como assegurar-lhe os cuidados adequados. Embora atendesse às suas responsabilidades, era, porém, um homem frio, alheio às convenções sociais, aos costumes. Ao ser questionado por sua namorada sobre se gostaria de casar com ela, Mersault responde que tanto faz. Perguntado, em seguida, se a amava, responde que não a amava, embora isso nada significasse.Então por que casar? Sua explicação era de que isso não tinha importância, mas se ela desejasse casar, casariam. Por fim, a namorada pergunta qual seria a sua resposta se partisse de outra mulher com a qual tivesse o mesmo relacionamento. A resposta: “Naturalmente”.

E assim acabou a maratona de livros do mês de julho. Estou bravamente percorrendo a maratona de agosto, dessa vez sem chance de completar a prova. Mas o estabelecimento de metas de leitura não tem objetivo meramente numérico, servindo mais como incentivo. Como disse a uma amiga há cerca de uma semana, as metas e os prazos são úteis, mesmo quando não são alcançados. Sem elas, o compromisso se dilui e o esforço arrefece.

Uma ótima semana e boas leituras para todos!

Uma ideia sobre “Breve resenha

  1. Olá Márcia!
    Faz dias que li seu texto. Demorei para comentar por causa de um probleminha no TABLET.
    Pois bem; sempre procuro ler os livros que você indica. Na maioria das vezes, gosto. Porém, EU SOU A LENDA (esse que fala em vampiros), nem quero conhecer!
    Me interessei muito por ELOGIO DA MADRASTA, pela descrição que você faz, e, principalmente por gostar muito do autor.
    Beijo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

15 + três =