Lar é onde vive o amor

Estamos nos aproximando do final do mês de julho, eleito por mim como o melhor mês do ano. E há um motivo pessoal para essa escolha: na próxima semana, a minha filha completará 21 anos. Legalmente, deixará de ser minha dependente para fins previdenciários. Afetivamente, há muito tempo deixou de ser minha dependente. Creio que eu seja a verdadeira dependente nessa relação. Dependente de seu sorriso. Dependente de sua cara amarrada. Dependente de seus abraços. Dependente de sua TPM. Dependente de seus beijos. Dependente de seu mau humor. Dependente de sua inteligência. Dependente de suas implicâncias. Dependente de sua determinação. Dependente de suas dúvidas. Dependente de sua coragem. Dependente de seus medos. Dependente de seu amor.

Há cerca de 22 anos, eu tive um sonho. Nele, conheci o filho (ou filha) que estava reservado para mim e me apaixonei. Não tinha preferência por menino ou menina. Não idealizava seus atributos físicos. Não sonhava com as suas realizações. O meu coração batia por alguém que estava a caminho (ao menos em meu pensamento) e estava destinado a se tornar o meu melhor amigo. Menino ou menina, eu sabia que a sua chegada tornaria os meus dias iluminados, mesmo diante de nuvens sombrias.

Então soube que seria uma menina. A sua chegada foi dramática, em meio a um parto perigoso, com mãe e filha retidas no hospital por quase uma semana. E foi assim que nos conhecemos. Na primeira vez que pousei meus olhos em seu rosto, ela estava lambuzada de sangue, com o rosto inchado dos traumas do nascimento, e berrava feito uma bezerrinha. Eu, que tive pré-eclâmpsia, pensava que iria morrer. Pensei que nunca mais veria a minha princesinha. E, enquanto meus braços tremiam e meu corpo se debatia, com os médicos à minha volta, tentando estabilizar minha pressão arterial, as lágrimas rolaram, de felicidade e tristeza, como se aquele fosse nosso instante de encontro e despedida.

O susto passou. Mãe e filha se recuperaram bem. Voltamos para casa. A chegada da minha filha orientou as escolhas que fiz a seguir e cada dia de nosso cotidiano trouxe mais sentido à minha vida. Embora ela tivesse menos de cinco anos quando me divorciei de seu pai, fui uma mãe linha dura. Sei que a dúvida é a eterna companheira das mães, mas penso que a fraqueza não é uma característica positiva. Contrariar o filho não é sinal de desamor. Dizer não é necessário, em muitas situações, embora “sim” seja a doce palavra que se deseja dizer a um filho. Mas ser dura não significa ser fria.

Sempre fui contra castigos físicos. Nunca acreditei em palmadinha na mão e outras lorotas do gênero. Sempre achei e continuo achando que bater em criança é sinal de descontrole emocional dos pais. O que pode fazer uma criança quando é machucada pelo adulto responsável por sua vida. “Minha filha é muito inteligente, podemos conversar sobre o que é certo e o que é errado”, era o que pensava. No dia a dia, eu tentava mostrar a vida segundo a minha ótica. Talvez rigorosa, mas jamais distante ou indiferente.

Os finais de semana da infância eram preenchidos com passeios no jardim zoológico ou matinês no cinema. Haviam as festinhas de criança, as manhãs no clube, pequenas viagens que fazíamos sozinhas. Em sua adolescência, eu ouvia suas bandas favoritas. Ela, por sua vez, acompanhava as minhas preferências. Compartilhávamos tudo: filmes, livros, música, moda, arquitetura, economia, história, jogos de computador…

Ela costuma dizer que eu a criei para ter com quem conversar e acho que tem razão. Meu plano poderia ter dado errado e ela podia detestar tudo o que gosto. Não foi o que aconteceu, ufa! Ela também gosta de Woody Allen, ópera, política e filosofia. Convenceu-se da necessidade de igualmente cultivar o corpo e a mente, como os gregos. Gosta de doces e sequilhos. Adora comida árabe. Aliás, ela gosta da comida que eu faço, embora eu nunca tenha me apresentado como boa cozinheira. Aliás, nem tempo eu tinha para isso, mas cozinhar para ela nos finais de semana sempre foi um prazer. Hoje ela é quem prepara delícias dietéticas para mim.

A nossa casa é o nosso lar. Aqui só existe espaço para o amor. E, sem saber o que o futuro nos reserva, seguimos em frente, unidas e amigas, sabedoras de que a nossa jornada não tem fim e a nossa amizade nunca acabará. Uma dia, quando eu tiver 120 anos e ela, 96, ainda estaremos unidas, dando trabalho e divertindo nossos descendentes, que, assim desejamos, serão tão insuportáveis quanto somos.

4 ideias sobre “Lar é onde vive o amor

  1. Que texto mais lindo, minha prima! Cada palavra dele está repleta do amor que une mãe e filha … Luísa é uma filha adorável e vc uma mãe sábia, guerreira e amorosa!
    Deus abençoe essa linda amizade!
    Amo as duas!

  2. Que lindo, Márcia! Esse texto, com certeza, iria para o “top five” dos mais belos que já li no seu blog. E bem espelha a relação de profundo amor e amizade de vocês duas. Beijos para a dupla!

  3. Coisa mais linda… E quanta identificação… Só posso dizer, com a garganta em chamas: meus mais sinceros parabéns, meninas lindas!

  4. Márcia, minha querida…
    De tudo que você escreveu até hoje, (e olhe que já escreveu bastante) nada me emocionou tanto como este texto.
    Chorei tanto ao relembrar o seu drama depois do parto… Mas, graças a Deus, tudo deu certo. E hoje temos o nosso lindo tesouro, prestes a atingir a maioridade,
    É verdade, lar é onde vive o amor!
    Beijos!

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