A minha Páscoa

Embora tenha nascido e crescido em uma família católica, não sou uma pessoa religiosa. Tendo estudado durante 14 anos – do maternal ao ensino médio – em colégios religiosos, aprendi todas as orações, conheço de cor todas as celebrações católicas. Recebi cinco dos sete sacramentos. Sei a hora de sentar, levantar e ficar de joelhos durante a missa. Sei cantar a maioria dos hinos religiosos. Conheço tanto o Velho quanto o Novo Testamento. Gosto das parábolas contadas por Jesus, sendo a minha favorita aquela que fala sobre o filho pródigo. Já faz algum tempo que deixei de repetir o Credo. Não participo de grupos de oração, não frequento a igreja, não vou à missa e já nem lembro quando foi a última vez que recebi a Eucaristia. Não pretendo me converter a nenhuma outra religião.  Não frequento centros espíritas ou terreiros de candomblé. Respeito todas as crenças.

Assim traçado meu autorretrato religioso, passo a refletir sobre a Páscoa, que, para mim, nunca foi representada por nenhum coelhinho ou por chocolates. Para os católicos, a Páscoa representa a ressurreição de Jesus Cristo, que ofereceu sua vida em sacrifício para a salvação das almas humanas.

As origens da Páscoa, todavia, remontam ao Pessach, a Páscoa judaica, quando Moisés orientou cada família hebreia a sacrificar um cordeiro e, com o sangue do animal, marcar as suas portas, para que a décima praga não atingisse os seus primogênitos. Naquela noite, amplamente encenada na televisão e no cinema, enquanto os hebreus comiam a carne do cordeiro com pão ázimo e ervas amargas, um anjo enviado por Deus matou todos os primogênitos dos egípcios. Só então o faraó, que perdeu seu único filho, concordou em libertar o povo hebreu. E foi na semana que antecede o Pessach que Jesus chegou a Jerusalém, onde veio a ser sacrificado. A Páscoa é uma data repleta de significado para judeus e cristãos.

É difícil, assim, entender porque católicos, ou pelo menos pessoas que assim se declaram, são arrebatados pelo furor consumista, neste ano reduzido em razão da crise econômica. Para ser sincera, não dou grande importância ao fato de um ovo de chocolate estar sendo vendido por 100 ou 500 reais. O que, afinal, essa guloseima representa, além de mais uma guloseima? Quando se goza de boa saúde e recursos financeiros, é possível comer chocolate qualquer dia do ano, em qualquer formato, recheado ou trufado. Respeito a iniciativa empreendedora dos fabricantes de chocolates, sejam eles industrializados ou artesanais, mas o que não entra em minha cabeça é a associação à Páscoa dos tais ovos de chocolate ou, pior, do coelhinho, que é um animal mamífero e, portanto, não põe ovos. Sim, vai-se dizer que o coelho é um animal associado à fertilidade e à ideia de uma vida nova, significado também associado aos ovos. Sinceramente, eu duvido muito que, dentre a maioria esmagadora dos consumidores de ovos de Páscoa, haja o mínimo interesse sobre o significado de coelhos ou ovos. A Páscoa, no final, serve, como o Natal, como justificativa para o incentivo ao consumismo, alavancado por motivos supostamente religiosos. Prefiro ser sincera e comer chocolate o ano todo, sem utilizar a passagem do anjo da morte pelo Egito ou a crucificação e ressurreição de Cristo como desculpa para a minha gula.

Enfim, hoje é Páscoa, a festa da renovação, e eu, que me declaro tão pouco católica, afirmo minha irrestrita admiração pelo Papa Francisco, primeiro papa nascido no continente americano. Quem sabe se, ao seguir o meu querido papa jesuíta, não viverei meu instante de epifania?

 

2 ideias sobre “A minha Páscoa

  1. Márcia,
    Ir ou não ir a uma igreja…participar ou não dos rituais da semana santa…Pode fazer muito bem. (Este ano fiquei muito feliz ao participar da missa da ressurreição). Mas… não é tudo. O importante são os nossos sentimentos. E isso eu sei que em você é o que existe de melhor!
    É o bastante para agradar a Deus… Sentimentos bons!

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