Viajando com idosos

Neste ano, os meus pais completaram 70 anos de idade, comemorados com uma viagem a Buenos Aires. Eu e minha filha tivemos a oportunidade de acompanhá-los e viver a experiência de uma viagem com idosos. É claro que eles não se classificam assim. E nem poderiam, já que a minha avó, com quase 93 anos, ainda não se considera idosa…

Das muitas lições aprendidas, o primeiro ponto que destaco é a importância de, independentemente da idade dos viajantes, contratar o seguro de saúde. Imprevistos acontecem, mas contar com cobertura médica pode evitar desdobramentos muito desagradáveis. Ao viajar com idosos, os cuidados com a saúde são redobrados. Antes da viagem, é conveniente realizar uma consulta com o médico de confiança. Um angiologista pode recomendar o uso de meias elásticas, para prevenção de problemas circulatórios. No caso de meus pais, foram ainda consultados o cardiologista e o ortopedista. Devidamente avaliados e liberados para a viagem, partimos para os preparativos propriamente ditos.

Indo pra Buenos Aires em viagem turística, a localização foi eleita como critério para escolha da hospedagem. Assim, optamos por um hotel na Recoleta, o Wilton Hotel. Localizado praticamente na esquina entre as Avenidas Callao e Santa Fé, o hotel nos deixou próximos a diversos pontos turísticos e a uma estação de metrô, entre as Avenidas Callao e Córdoba. Apenas para ter ideia, a partir da Recoleta, é possível, a um casal saudável de 70 anos, chegar caminhando até o centro da cidade. Embora se trate de construção antiga, o Hotel Wilton conta com quartos de bom tamanho, camas confortáveis, banheiro amplo, serviço de limpeza diária caprichada, além de café da manhã incluído na diária e Wi-fi gratuito no lobby.

Feitas as reservas de vôos e do hotel e adquirido o seguro-saúde, a próxima providência foi escolher a forma de traslado do aeroporto até o hotel. Através de pesquisas em blogs de viagem, descobri o serviço de Jorge. Sem maiores informações, contratamos os serviços de sua empresa, Leva Eu. Foi uma grata surpresa encontrarmos um simpático argentino que viveu por muitos anos no Brasil, fala fluentemente o português e nos atendeu com a máxima cordialidade. Além de realizar nosso traslado de ida e volta ao aeroporto, Jorge ainda nos auxiliou com o câmbio.

Uma vez instalados no hotel, iniciamos nosso passeio propriamente dito. A estratégia adotada foi distribuir os passeios ao longo dos dias, de modo que pudéssemos retornar ao hotel e descansar antes de novo passeio. Além de recuperar o fôlego, essa parada serviu para evitar problemas ortopédicos decorrentes do excesso de esforço.

Antes mesmo de viajar, excluímos dois passeios de nosso plano de viagem: 1º. Zoológico de Lujan – não havia sentido em nos deslocarmos para fora da cidade para visitar um zoológico, principalmente levando em conta que o seu principal atrativo, ou o mais divulgado, é a possibilidade de contato físico com as feras (abraçar, acariciar). Vamos pensar: leões e tigres que aceitam afagos humanos? Muito estranho… Além do mais, serei honesta: meus pais nunca foram tão apaixonados por animais. 2º. Delta do Tigre – o período de nossa viagem – durante o inverno – não encorajava a grandes exposições ao clima.

Dia 1 (quinta-feira): Após o café da manhã, caminhamos pelas ruas da Recoleta, admirando a arquitetura, até chegarmos à basílica Nuestra Señora del Pilar, uma linda construção colonial. Em seu interior, uma suave música (parecia canto gregoriano) estimulava a contemplação e inclinava o espírito à oração. Uma maravilhosa experiência. Em seguida, seguimos a pé até a Faculdade del Derecho e à Floralis Generica. A primeira é uma bela construção, que encantou minha mãe; a segunda, uma imponente escultura moderna, que figura dentre os pontos turísticos e cartões postais da cidade. Após as paradas obrigatórias para fotografias, andamos até o Cemitério da Recoleta, onde visitamos as alamedas e os túmulos. Voltamos ao hotel para um pequeno descanso antes do almoço. À tarde, fomos à Livraria El Ateneo, sempre belíssima, e à noite, comemos uma pizza no restaurante La Farola, na Avenida Santa Fé..

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Livraria El Ateneo

Dia 2 (sexta-feira): Pela manhã, caminhamos pela Avenida Santa Fé em direção ao centro, passando pela Avenida 9 de Julio até chegar à Calle Florida. Passeamos pela Galeria Pacífico e prosseguimos a caminhada até a Plaza de Mayo. Visitamos o Cabildo, belo prédio histórico em arquitetura colonial e retomamos nossa caminhada, desta vez pela Avenida de Mayo. Almoçamos bife de chorizo e milanesas no restaurante La Esquina de Garufa, entre as avenidas de Mayo e 9 de Julio. Continuamos andando até o Congreso, de onde seguimos pela Avenida Callao até chegar ao hotel. À noite, voltamos ao restaurante La Farola, para petiscos, vinho e tiramisú.

Dia 3 (sábado): Caminhamos até a estação de metrô, localizada entre as Avenidas Callao e Cordoba. Pegamos o metrô até a estação Catedral, que fica praticamente na Plaza de Mayo. Ali chegando, visitamos a Catedral Metropolitana e a Casa Rosada. Enquanto a Basílica Nuestra Señora del PIlar aproxima nosso espírito do divino, a Catedral Metropolitana, por sua imponência e monumentalidade, exibe a insignificância do homem diante da força e grandiosidade de Deus.

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Mosaico no piso da Catedral Metropolitana

 

Neste dia, ocorria uma Feira de Integração Nacional, o que transformou a Plaza de Mayo no palco de um desfile de trajes, música e danças típicos de grupos indígenas que compõem a população argentina. Após a visita guiada à Casa Rosada, caminhamos pela Avenida de Mayo até a 9 de Julio e o Obelisco. Dali, fomos pela Avenida Corrientes até a pizzaria El Cuartito, onde almoçamos. Nossa principal diversão foi observar o garçom, que, de cara fechada, atendia agilmente a mais de 20 mesas. Ali pudemos concluir que a eficiência vale bem mais do que um sorriso de enrolação. Nota dez para nosso garçom mal-humorado. Retornamos ao hotel e, à noite, mais uma vez fomos ao La Farola, desta vez para um café com croissant, chá etc. O garçom já nos conhecia…

Dia 4 (domingo): Mais uma vez, pegamos o metrô até a estação Catedral e, desta vez, nos atiramos pela Feira de San Telmo, o que tomou quase toda a nossa manhã. Meus pais aproveitaram para comprar lembranças de viagem para minha avó, meus irmãos, cunhadas e sobrinhos. No retorno, compramos os ingressos para o espetáculo de tango no Café Tortoni. Pegamos o metrô e almoçamos em um restaurante de buffet na Recoleta. À noite, voltamos ao Café Tortoni, para assistir ao espetáculo de tango. Um salão pequeno, no fundo do café, com mesas para quatro pessoas e um palco quase no nível do chão.Uma pequena banda, uma cantora e um casal de dançarinos. É, realmente, um show modesto, principalmente se levarmos em conta os espetáculos com grandes produções vendidos para os turistas. Sinceramente? Gostei muito do tango no Tortoni, por resgatar o clima de um café, uma pequena boate. Adoramos.

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Dia 5 (segunda-feira): Pegamos um táxi até o estádio La Bombonera, onde fizemos a visita guiada. Meus pais, apaixonados por futebol, adoraram o passeio. Visitamos todo o estádio, conhecendo os melhores e piores lugares para assistir aos jogos. De modo hilariante, a guia de nosso grupo descreveu as armadilhas preparadas para os times e torcidas visitantes. A primeira: a arquibancada mais popular fica sobre o vestiário da equipe visitante. Assim, duas horas antes do jogo, a torcida boquense começa a pular e gritar alucinadamente e o barulho provocado ressoa no vestiário, atrapalhando a preparação dos atletas opositores. A segunda: a torcida adversária fica em um pequeno espaço reservado, distante do campo. Além de ter que subir muitas escadas para chegar à tal área reservada, ali não há nada para comer ou beber, havendo apenas um banheiro para atender toda a torcida visitante. Após as explicações dadas por nossa guia, meu pai lembrou que o estádio do  Boca Juniors é conhecido como “alçapão”. O Museo de la Pasion Boquense nos fez lembrar do Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Embora o time portenho exiba orgulhosamente a Taça Libertadores da América, eles não contam com a “Galeria da torcida”, que, sob a arquibancada do Pacaembu, oferece o emocionante espetáculo dos gritos de guerra das torcidas dos times brasileiros. Ponto para o museu paulistano.

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Taça Libertadores da América

Dia 6 (terça-feira): Neste dia, pegamos o metrô até a estação Plaza Italia, em Palermo, de onde caminhamos até o Rosedal. Alí, tiramos muitas fotos e fizemos várias paradas para admirar o jardim, que, apesar do inverno, ainda exibia belas roseiras. Em seguida, pegamos um táxi até o Museo Nacional de Belas Artes. Almoçamos no shopping Buenos Aires Design, tomamos sorvete de dulce de leche na sorveteria Volta e visitamos o museu. Voltamos ao hotel e, nesta noite, jantamos no hotel e acionamos o seguro saúde (Assist-Card) para atender meu pai, que estava com uma dermatite alérgica que deixou suas pernas feridas. A médica veio ao hotel e atendeu meu pai em seu quarto. Após o exame físico e algumas perguntas respondidas em portunhol, prescreveu uma pomada e um anti-alérgico. Deixou, ainda, um comprimido que ele deveria começar a tomar ainda naquela noite. Pois é… Ninguém deseja acionar o seguro, mas é muito bom poder contar com ele em caso de necessidade.

Dia 7 (quarta-feira): Nosso último dia em Buenos Aires havia sido reservado para fazer os passeios remanescentes – Puerto Madero, Malba -, mas decidimos permanecer pela Recoleta, para poupar meu pai de mais caminhadas e esforço, que podiam piorar o estado de suas pernas. Pela manhã, fui com minha filha à Farmacity, onde compramos os remédios para meu pai. Almoçamos em um ótimo restaurante, La Cholita (recomendação de Jorge, do transfer Leva eu) e novamente tomamos sorvete de dulce de leche, desta vez na sorveteria Persicco, ali mesmo na Callao. Encerramos a viagem com mais uma visita à livraria El Ateneo e uma passada no Starbucks, que também ficava nas imediações do hotel.

E assim acabou nossa viagem. O saldo? Muitas risadas, o corpo ficou cansado, mas valeu a pena, principalmente pela oportunidade de passarmos uma semana juntos, dividindo experiências. A quem nunca fez, recomendo, ao menos uma vez na vida, uma viagem com os pais. Embora a programação tenha de ser ajustada aos interesses comuns, estar em família nunca é demais.

P.S.: Todas as fotos existentes neste post são de minha autoria ou de minha filha, Luíza.

8 ideias sobre “Viajando com idosos

  1. Márcia,

    amei o post! Fiquei entusiasmada com a ideia e pretendo colocá-la em prática.
    grande bjo

  2. Olá Márcia viajar para mim, é renovar, e se for em família e bem melhor, através do seu olhar conhecemos a Argentina e deu muitas dicas para quem quer conhece-la!

  3. A viagem deve mesmo ter sido maravilhosa.
    Estar com quem amamos e dividindo bons momentos é muito gratificante.
    Parabéns, querida.

  4. Oi, amiga! Muito bom ter você de volta ao mundo dos blogspot. Adorei a sua volta. Li ambos os textos do regresso e adorei., especialmente este da viagem com seus pais. Sei o quanto você preza sua família e a importância dessa viagem pra vocês. Meus parabéns por esse amor compartilhado e também pelo roteiro que facilmente pode ser seguido por outros viajantes. Você seria uma excelente guia turística! Grande abraço.

  5. Márcia,
    Viajar com vocês é uma experiência gratificante. Independente da agradável companhia o seu planejamento não fica a dever nada as famosas excursões, pois não possui a rigidez de roteiros e horários.
    Adoramos!

  6. Que beleza, Márcia!
    Foi tão bom rememorar nossa viagem…
    Reviver aqueles momentos tão felizes que passamos juntos!
    Algum dia faremos outra viagem juntos. Valeu a pena!
    Te amamos!

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