Os bonzinhos

Sempre gostei de filmes e livros. Na primeira vez em que fui ao cinema (ao menos em minha lembrança), assisti a uma versão do Mágico de Oz, com Michael Jackson, Diana Ross… Não lembro a idade que tinha, mas certamente o filme não me impressionou, pois não guardo nenhuma recordação especial daquele dia. Ao contrário, lembro nitidamente quando, em homenagem aos 50 anos da estreia, os cinemas reexibiram E o vento levou… Eu era adolescente e nunca havia assistido a um filme tão longo: 238 minutos, quase 4 horas. Tão longo que havia intervalo no meio, para que as pessoas pudessem ir ao toilette, beber água, esticar as pernas.

O cinema nos presenteia com vilões de ouro, como já visto, na eleição do malvado favorito. E quanto aos bonzinhos? Ora, o que seria do cinema sem os seus mocinhos? O grande problema é a chatice crônica dos heróis. Aos meus ouvidos céticos, suas palavras soam como fraude. A bondade excessiva não convence pelo exagero das boas intenções. Ninguém é assim. Voltemos ao filme E o vento levou… Quem, na vida real, seria tão desprendida e bondosa como Melanie Wilkes que, durante toda a vida, acolheu a traiçoeira Scarlett O’Hara como a uma irmã. Em seu leito de morte, Melanie ainda implorou a Scarlett que cuidasse de seu marido, embora a falsa amiga tivesse passado a vida inteira tentando “seduzir” o indeciso Ashley Wilkes. Dá para acreditar em alguém como Melanie?

Por muito tempo, eu não aceitava Melanie como uma personagem verossímil. Parecia ingênua em excesso, boa demais, um anjo perfeito. Mudei de ideia. Hoje percebo Melanie como a personagem mais sagaz do filme. Aliás, ali só quem verdadeiramente compreendia Melanie era Rhett Butler. Não foi por ingenuidade que Melanie insistiu em manter Scarlett tão próxima, mas por aplicar, em sua vida, a máxima que aconselha a conservar os inimigos por perto. De frágil, Melanie não tinha nada, pois, embora doente, foi ela quem matou o invasor, quando, durante a guerra, a casa estava desprotegida e as mulheres, indefesas. Melanie era verdadeira dona da história, a única que sempre teve o controle da sua vida. Há como ser mais maquiavélica do que sendo boa?

2 ideias sobre “Os bonzinhos

  1. Marcia estive viajando voltei ontem e ja li sua postagem sobre “os bonzinhos” tambem concordo com você
    Bjs

  2. Olá, Márcia!
    Você está certa. Melanie, de ingênua não tinha nada! Teve o marido sempre consigo. Scarlett preparava todo tipo de artimanha para conquistá-lo!
    Beijos!

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