Era uma vez uma moça que gostava de bolos…

Era uma vez uma menininha que adorava laranjas e bolos…

Ainda criança, aprendeu a descascar suas laranjas de maneira impecável, sem ferir nem um pouco a fruta, conservando intocável o sumo brilhante com o qual, ao final da operação, se deliciava. Eram tempos diferentes e, antes dos dez anos, a menina. habilidosamente, manobrava uma faquinha de frutas, sem jamais acidentar-se (graças a Deus, que protege os pequenos!). Orgulhava-se das longas serpentinas cítricas formadas pela casca inteiriça das laranjas. Sorria, condescendente, com as fracassadas tentativas dos impacientes que, como selvagens, destroçavam o fruto. Nesse momento, brilhava, orgulhosa de sua perícia.

Quanto aos bolos, a coisa era diferente. Não lha faltava vontade de aprender o mistério do seu preparo. O obstáculo, mais uma vez, não eram os riscos inerentes à confeitaria, mas o preciosismo de mãe, tias e avós que tinham, cada uma, uma receita sensacional que elaboravam, sempre preterindo as investidas da menina.

A menina cresceu. Não esqueceu, porém, sua paixão por laranjas e bolos. Vivendo com a mãe, permanecia, ainda, alijada do preparo dos bolos. A mãe, aliás, mimava a última filha a permanecer em casa dos pais. Antecipava os desejos da menina, agora já adulta, fazendo deliciosos bolos de fubá, tapioca, aipim, coco, chocolate e muitos outros cujas receitas obtinha com as amigas da igreja.

Mãe e filha eram bastante religiosas e, em casa, onde se cultivava uma atmosfera de muita fé e amor, não havia espaço para bebidas alcoólicas. Isso não as impedia de receber amigos e parentes, que, gulosamente, desfrutavam de doces, bolos, sucos e outros lanchinhos.

No final do ano, elas se preparavam para receber os três outros irmãos, já casados, que vinham comemorar o Natal em família. Naquele ano, finalmente a moça convenceu a mãe a deixá-la preparar um bolo especial. Após muita pesquisa realizada entre amigos e revistas de culinária, encontrou a receita ideal: um bolo de chocolate amargo, regado com uma calda de rum. Todos os irmãos já haviam chegado e arrumavam a casa para a ceia quando a moça caiu em si: “não temos rum!”. Claro que não tinham! Ela, todavia, não cogitou alterar a receita mágica.

– Vamos, Gu! Ali no mercadinho a gente deve encontrar o rum para o bolo. – disse, convocando o irmão mais velho para acompanhá-la.

O mercadinho do bairro, porém, era, ou estava, muito fraquinho naquela véspera de Natal. Algumas garrafas de vinho tinto suave, as conhecidas latas de cerveja, uma vodka, nada de especial que pudesse ser utilizado no bolo do Natal.

– Não tem! O jeito é voltar para casa e fazer o bolo sem a calda. – disse o irmão.

– Não! – bateu pé firme a confeiteira detalhista. – Se a receita pede rum, tem que ter rum.

– E onde você pretende encontrar esse rum?

– Ora, Gu! No bar. Onde mais a gente pode encontrar bebida?

– E você vai ao bar? – perguntou, incrédulo, o irmão, silenciosamente recordando as convicções religiosas da irmã, que barravam o consumo da mais inocente cervejinha no almoço de domingo.

– Você vai comigo. – disse, já saindo do mercadinho e caminhando em direção ao botequim da esquina, onde os alto-falantes estrondavam ao som do arrocha.

Enquanto Pablo chorava suas dores na melodia irritante, a moça, da porta do bar, gritou para o homem no balcão:

– O senhor tem rum?

– Como? – respondeu o vendeiro.

– Tem rum? – repetiu, berrando ainda mais alto.

– Só cerveja e cachaça.

– Ah, tá. Obrigada. – respondeu a moça, já saindo e arrastando o irmão. – Tem outro bar ali na frente. Lá deve vender rum.

O irmão, muito protetor, acompanhou a jornada etílica. Dobrando a esquina encontraram um boteco seboso, com mesas plásticas encardidas e grupos de bebedores que, às 10 horas da manhã, se embriagavam alegremente. Sem pestanejar, a moça entrou no bar, aproximando-se do balcão.

– Bom dia. O senhor tem rum?

– Sim. – respondeu o rapaz do bar, vendo a moça abrir um lindo sorriso. – Quer uma dose?

– Não. São duas doses. – respondeu com convicção.

– Duas? Por que duas? – perguntou o irmão. – E eu pensei que você fosse comprar uma garrafa.

– Ora, Gu! Eu não preciso de uma garrafa de rum, só o tanto da receita. Além do mais, fica mais caro comprar aqui do que no mercado. Só que, depois de tanta dificuldade, eu não vou levar a conta certa. É melhor levar com sobra.

Ouvindo o diálogo surreal, o rapaz do balcão perguntou:

– É pra levar?

– Sim, eu vou usar o rum no bolo de Natal.

– Ah! Logo vi… – falou o rapaz. – Eu estava estranhando o seu pedido, pois você não tem jeito de quem bebe pela manhã, mas, no meu trabalho, não tenho que perguntar nada, só vender… Vou colocar as duas doses num copo descartável, para poder transportar, mas isso evapora, então não demore para fazer o bolo.

– Obrigada. Jesus te proteja e dê um bom Natal a sua família. – alegrou-se a moça, pagando a bebida e carregando o copo descartável, protegido por alguns guardanapos.

Chegando em casa, o irmão, frouxo de riso, relatou minuciosamente a aventura vivida e a moça ingressou na cozinha, como cientista em seu laboratório, de onde saiu com o fruto de sua dedicação, lindo, cheiroso, apetitoso. À noite, após a ceia, o bolo foi servido. Contam que jamais, em tempo algum, antes ou depois, foi servido bolo de chocolate mais delicioso…

2 ideias sobre “Era uma vez uma moça que gostava de bolos…

  1. Oi, Márcia! Eu acho que conheço a doceira. Sei que gosta muito de bolos, não sabia que chegava ao ponto de andar de bar em bar. Rsrsrsrs.
    Abraços,continue escrevendo, você sabe das coisas.

  2. Ótimo, Márcia!
    Você nasceu pra escrever.
    Gostei muito!
    Ainda mais conhecendo os personagens!…
    Beijão, minha escritora preferida!

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