A moça do dragão

“Algumas coisas são imperdoáveis,” pensou.

Apareceu inesperadamente em sua pequena cidade, após três anos morando na Capital. Ao partir, dissera a seus amigos e vizinhos, moradores do local, que havia sido aprovada no vestibular. “Tenho muita sorte”, dizia, “pois consegui vaga em pensionato para moças”.

Passados três anos, poucos a reconheceram. Os seus cabelos crespos e negros estavam longos, lisos e loiros. As unhas, muito longas, ricamente ornamentadas com pedrinhas brilhantes. Longos brincos, pulseiras e anéis dourados adornavam o corpo sinuoso. Os saltos vertiginosos deixavam-na muito mais alta do que qualquer outra moça do lugar. Seu vestido, justo, curto e decotado, mais parecia ter sido cosido no corpo. Exalava forte perfume adocicado e conservava os lábios e olhos expressivamente maquiados. As costas nuas exibiam uma generosa tatuagem de dragão, que, feroz, abraçava todo o corpo.

Descrevia, com profusão de detalhes e insuspeita animação, as festas, bares e boates da cidade grande. Espantava-se com a simplicidade do lugar, com as antigas cadeiras de  lona alinhadas nas varandas das casas e as roupas velhas e fora de moda de seus antigos conhecidos.

– Minha querida, conte como é a vida na cidade. E os estudos? – perguntou uma velha amiga de seus falecidos pais.

– Maravilha, linda! Tenho aprendido tanto… Um luxo, muitas aulas, muitas aulas mesmo…

– E o pensionato é bom? As outras moças são aplicadas como você? Estudam juntas?

– O pensionato… Ah! Era muito bom, mas eu não fiquei lá. Assim que cheguei à cidade, consegui um emprego de meio período e, com meu salário, pude dividir as despesas de um apartamento com uma amiga.

– Que bom! Falam tanto da dificuldade em conseguir trabalho por lá. Você deu sorte.

– Sim, linda, tive muita sorte.

– Você está diferente. Seus cabelos..

– Foi exigência de meu patrão. Em meu emprego tenho que cuidar muito de minha aparência.

– Está bonitona. Seus pais ficariam orgulhosos de você.

– Sim, minha flor. Eles ficariam muito orgulhosos de meu sucesso.

Sentaram-se na varandinha da casa. Dali era possível avistar a praça e o coreto, onde tantas vezes ela, quando menina, brincara de picula e esconde-esconde. A velha amiga ofereceu-lhe alguns biscoitinhos de nata.

– Desculpe, meu doce, mas eu não como carboidratos.

– Carbo o que?

– Mas aceito um copo com água.

– Só um instantinho. Já trago água bem geladinha da moringa.

– Moringa, não, linda. Se não tiver água mineral, você pelo menos deve ter um filtro.

– Menina, você está mudada. Ficou exigente. Seus pais eram pessoas tão simples.

– As coisas mudam, querida. Mas me conte: quem é aquele que passou ali naquele carrão?

– Aquele é o Doutor Guilherme, dono daquelas terras por trás do rio, casado com a única filha do Coronel Ferreira.

A gazela ergueu-se lentamente e, assegurando-se de ser avistada por sua vítima, que acabara de estacionar do outro lado da praça, deslizou suavemente, como víbora traiçoeira. Passou ao lado daquele homem alto, vistoso, bronzeado. Caminhava tão lentamente de maneira a não passar despercebida e, ao mesmo tempo, veloz a ponto de não parecer interessada.

O velhaco entendeu a mensagem e, percebendo que ela entrara em via secundária, retornou ao carro, seguindo a presa. Aproximou-se e, insinuante, perguntou à bela pedestre:

– Para onde vai, princesa? Posso te levar aonde quiser. Até o fim do mundo.

– Não precisamos ir tão longe. – respondeu, com um sorriso insinuante nos lábios.

Assim teve início aquela relação secreta. Financiada pelo rico pecuarista, a serpente alugara uma casa que, convenientemente, tinha por vizinho dos fundos um antigo empregado do rico benfeitor. Em troca de dinheiro e moleza no trabalho, Melquíades – esse era o nome do pilantra – já estava acostumado a encobrir as constantes aventuras de seu patrão.

Sem nenhuma inclinação para o convívio com os padrinhos simplórios, a bela misteriosa tornara-se assídua no pequeno salão de beleza do lugar, único local em que sua presença era sinceramente festejada. Ali divertia-se com as pequenas fofocas locais, enquanto polia e esmaltava suas unhas ou retocava as mechas douradas de seus cabelos, sem jamais questionar os valores inflacionados dos serviços estéticos realizados.

Certo dia, apareceu na  pequena cidade um estranho homem.  Com a pele trigueira, olhos negros e penetrantes, farta cabeleira negra presa em rabo de cavalo, parecia um dos ciganos que, por muito tempo, viveram pelas redondezas. Dirigiu-se ao primeiro botequim que encontrou, em busca de indicação de pensão ou outro meio de hospedagem. Abrigou-se na velha pensão de Dona Zica, onde já viviam mais dois hóspedes, Antunes, funcionário do Banco do Brasil, e Tiago, jovem agrônomo da fazenda do Doutor Guilherme.

O novo hóspede pouco falava, aumentando o mistério em torno de seu passado e de seus objetivos naquela cidadezinha. Certo dia, após o jantar, sentou-se em uma das pequenas cadeiras da varanda, apreciando o movimento da rua. Tiago, que retornava de seu trabalho, ao encontrá-lo tão disponível, animou-se a puxar prosa:

– Que noite quente! Em sua terra também faz esse calor?

– Sim, em minha terra faz calor no verão e frio no inverno. No outono, as folhas caem e na primavera, as flores perfumam os campos.

– O amigo veio à nossa cidade a trabalho ou a passeio? Quem sabe amores…

– Venho em busca do meu destino, que insiste em me escapar. Tenho informações de que aqui enfrentarei a mais dura das batalhas. E, após tal duelo, levarei o meu prêmio ou queimarei nas brasas do inferno.

– O amigo fala de maneira enviesada. Não tenho notícia de nenhuma batalha em nossa região e os duelos há muito foram proibidos, como o senhor já deve saber.

– O senhor conhece as pessoas daqui? As pessoas que mandam no lugar? Os poderosos, ricos, influentes?

– Eu trabalho para o genro do Coronel Ferreira, proprietário de todas aquelas terras além do rio.

– O senhor poderia me apresentar a ele? Tenho uma oferta irrecusável a fazer.

– O amigo precisa compreender. Sou uma pessoa de fácil lidar, mas meus patrões são pessoas muito preocupadas com a segurança e privacidade. O amigo teria de me dizer do que se trata e fornecer algumas informações sobre si. De onde vem, em que trabalha…

– O senhor dirá a ele que precisamos conversar sobre as necessidades do dragão.

– Dragão?

– Ele entenderá.

Arrependido por haver iniciado aquela conversa, Tiago despediu-se rapidamente, recolhendo-se a seu quarto, de onde não saiu até o dia seguinte.

Dona Zica já observara que Assis – esse era o nome do cabeludo – saía todas as noites, só retornando ao amanhecer, quando ela já se levantava para preparar o café e iniciar a lida diária. Houve ocasião em que se assustara, ao deparar com Assis, cabelos ao vento, esgueirando-se como um gato pela porta do quintal e escapulindo para o seu quarto, antes que pudesse ser interpelado pela senhoria.

Passado quase um mês desde a intrigante conversa, certo dia Tiago chegou mais cedo, perguntando a Dona Zica pelo hóspede misterioso.

– Viajou por uma semana, a negócios. Mas volta no próximo domingo. Disse que o senhor pode marcar o encontro para  a segunda.

– Que encontro?

– Ele disse que o senhor ia entender.

A semana custou a passar. O Doutor Guilherme concordara com o encontro, com uma condição: levaria o Melquíades, seu homem de confiança, velho alcoviteiro e comparsa em atividades ilícitas e levianas. Domingo à tardinha, Assis retornou de viagem, refugiando-se em seu quarto. Tiago correu até a varanda, onde a dona da pensão balançava-se em sua cadeira.

– Assis disse o que ia fazer nessa viagem, Dona Zica?

– Ele pagou as diárias e ainda me deu uma bela gorjeta. Eu não quero saber da vida dele nem da sua, doutor. Se não atrasar o aluguel, nem trouxer mulher para minha casa, pode viver como quiser. O que vocês fazem fora daqui não me interessa.

– Desculpe, Dona Zica. Não se ofenda.

Assis, como de costume, saiu, após a meia-noite, sumindo pelas ruelas da cidade. Ao retornar, na manhã de segunda, não foi para seu quarto, permanecendo na varanda até a saída do agrônomo, já atrasado para o trabalho.

– Marcou o encontro?

– Sim, amigo. Na casa de seu Melquíades, capanga do coronel, hoje às oito da noite.

– Muito bem. Diz a ele que pode ficar me esperando.

O dia passou lentamente, a tarde arrastou-se e, à noite, Assis caminhou tranquilamente até a casa de Melquíades. Ia preparado, levando consigo a Zeferina e o Timóteo, sua faca e seu revólver, respectivamente. “Encontro na casa do capanga. Essa vai ser difícil”.

As ruas iam ficando cada vez mais desertas e silenciosas, à medida em que se afastava da Praça da Matriz. Ao chegar à esquina da rua em que ficava a casa de Melquíades, Assis avistou o carro do fazendeiro. Chegando em frente à casa, não avistou campainha. Bateu duas vezes. Melquíades abriu a porta e apontou com o queixo em direção à salinha, onde Doutor Guilherme aguardava, sentado na única poltrona disponível.

– Então… Soube que anda querendo falar comigo. Diga lá o que está querendo e não ocupe meu tempo à toa. – disparou, arrogante, o fazendeiro.

– O seu capanga vai ficar aqui, escutando o que tenho a lhe dizer?

Melquíades retesou, avançando ameaçadoramente contra o forasteiro.

– Calma, Melquíades. – retorquiu Doutor Guilherme – Se tiver alguma coisa a me dizer, pode falar na frente de meu funcionário. Ele é pessoa de minha mais alta confiança.

– Você faz ideia da enrascada em que se meteu? – perguntou Assis.

– De que está falando? – quis saber Doutor Guilherme, enquanto se remexia, desconfortável, na poltrona.

– Essa menina que você meteu nessa casa ai do fundo. A garota do dragão…

– Do que está falando? – tornou a perguntar o fazendeiro.

– Não se faça de besta. Quem você pensa que engana? Essa pilantra não é quem você pensa. – insistiu Assis, cada vez mais agressivo.

– Ora, camarada. Não sei do que está falando. Pensei que queria tratar de negócios. Assuntos de mulher eu não discuto.

– Eu não vou ficar insistindo. Você tem a chance de se safar de uma encrenca. Eu não tenho nada a ganhar ou a perder.

Doutor Guilherme olhou para Melquíades, perguntando, num sussurro:

– O que você sabe sobre isso?

– Sobre isso o que, doutor? O doutor sabe que a menina mora na casa do fundo. Eu não acompanho o que se passa na casa dela. Só sei o que todo mundo sabe: que os pais dela já morreram, que ela estava estudando na Capital, que veio rever os amigos e foi ficando por aqui depois que conheceu o sen… Ops, depois que fez amizades aqui.

– Olha, vamos deixar de rodeios. – interrompeu Assis. – Já percebo que você não sabe nada dessa bandida.

– Quem é você? De onde você a conhece?

– Todos me chamam de Assis. Sou detetive particular e estou na cola dessa biscate desde o último golpe que ela aplicou lá na Capital.

– Como? – levantou-se o Doutor Guilherme. – Golpe? Que tipo de golpe?

– Não sei o que ela fazia depois que saiu da casa dos pais. Aliás, ninguém sabe muito bem onde ela vivia ou de onde tirava o sustento. O mais provável é que se prostituísse. A verdade é que ela nunca se matriculou em nenhuma faculdade, como inventou para vocês.

– Não tava na faculdade não? – interrompeu Melquíades.

– O seu rastro só apareceu nos últimos dois anos. Por essa época, ela já havia sido notada pelos frequentadores da prainha. Aliás, era impossível não perceber aquele mulherão com um dragão tatuado nas costas. Ela, porém, não dava bola a nenhum deles. Então, de uma hora pra outra, sem que ninguém atinasse para o motivo, ela sumiu. Deixou de frequentar a praia. Passadas algumas semanas, foi avistada por um vendedor de picolé enquanto entrava em um pequeno prédio numa rua menos movimentada, ali mesmo no bairro. O garoto contou aos conhecidos da praia que a garota do dragão ainda andava por ali.

– Aonde ela ia? – perguntou Melquíades, já inquieto.

– Alguns dos rapazes da praia pagaram ao garoto do picolé e a outros companheiros dele para que ficassem de vigia na ruela e descobrissem o que a moça estava fazendo ali.

– Povinho mais desocupado, esse da Capital… – indignou-se Melquíades, sempre tão discreto.

– Logo o rapazinho notou que sempre que ela entrava na casa, havia um carro parado na porta. E o tal carro só ficava parado quando ela estava lá. O menino anotou a placa e levou para os curiosos da praia. Eles estavam curiosos, sim, mas nem tanto. Ninguém se deu ao trabalho de investigar de quem era aquele carro. Aliás, eles nem mesmo se deram ao trabalho de ir à tal ruazinha tentar encontrar a moça. Perderam o interesse.

– Oxe! Também eles tinham mais é que cuidar da vida deles, não é, Doutor Guilherme? – levantou-se Melquíades, já impaciente.

– Deixe que ele conclua a história. – disse o fazendeiro, calmamente.

– Umas duas semanas depois, a polícia encontrou um homem morto num apartamento naquela mesma rua. Não haviam sinais de violência. A principio, os policiais pensaram se tratar de um caso de infarto. Os peritos, porém, logo apontaram a causa mortis: envenenamento por arsênico.

– Envenenado… – suspirou Doutor Guilherme, lívido.

– O homem morto era o dono do carro que ficava parado em frente ao prédio sempre que a garota do dragão estava por lá.

– E quem era ele? – quis saber Melquíades, a essa altura já roendo as unhas.

– Havia mais de uma semana que a família havia sido relatado o seu desaparecimento. Ele era comerciante, morava com a mulher e os filhos pequenos em um bairro luxuoso um pouco afastado e mantinha aquele apartamento para encontros.

– E quem envenenou? A mulher do dragão? – perguntou Melquíades, quase sem respirar.

– Não sabemos. Fui contratado pela família do falecido, pois, antes de morrer, ele havia sacado do banco uma grande soma em dinheiro e que desapareceu. Coisa para mais de um milhão, dizem…

– E por que você procura a moça do dragão? Qual a ligação dela com essa história? – quis saber Doutor Guilherme, erguendo-se da poltrona, já impaciente.

– O menino do picolé já prestou depoimento, confirmando que ela frequentava o apartamento. Ela é a principal suspeita. Eu preciso coletar provas de que o dinheiro está com ela.

– Não precisa se aborrecer com essas bobagens, benzinho. – disse a garota do dragão, que entrava pela porta dos fundos.

– Melquíades, você esqueceu de trancar a porta do quintal? – bradou Doutor Guilherme, enquanto se dirigia à garota. – E você, o que tem a me dizer de tudo isso?

– Foi um grande mal-entendido. – respondeu a bela, chorosa.

– Mal-entendido? O que você ia fazer naquele apartamento? – perguntou Assis.

– Eu não conhecia esse homem de quem vocês falavam. Eu era cuidadora de uma senhora idosa que morava naquele prédio. Depois que a família mudou de cidade, eu deixei de ir ao prédio.

– Mas você mentiu quando disse que estava estudando. – irritou-se Melquíades. – E esse cabelo loiro, essas roupas curtas e decotadas, esse dragão nas costas? Você quer que eu acredite que você não fazia a vida na Capital? Menina, eu conheci seu pai. Se ele estivesse aqui, ia te encher de bolacha.

– Calma, Melquíades. – falou Doutor Guilherme. – Menina, por que você mentiu? O que aconteceu de verdade?

– Quando fui para a cidade, trabalhei durante algum tempo como empacotadora em um supermercado. Nessa época, eu morava numa pensão. Uma dia, perdi o emprego e a dona da pensão me falou dessa família que precisava de uma cuidadora. Eles me dariam casa, alimentação e um salário. Eu só precisava tomar conta da velhinha.

– E de onde saiu essa tatuagem? E esse cabelo loiro? – insistia Melquíades.

– Por que está tão irritado? – apartou Doutor Guilherme.

– Não está vendo, Doutor. Ela está armando para o senhor também. Com essa conversinha mole, não é mesmo, seu Assis?

– Moça, eu não sei quem está dizendo a verdade. – disse Assis. – Daqui eu vou te levar até a polícia e lá você vai dar as suas explicações. Se for inocente, prove. E o senhor, Doutor Guilherme, se quiser ficar com ela e pagar pra ver, não diga que não foi avisado.

Doutor Guilherme deu um suspiro profundo e, enquanto seu pensamento vagava para o dragão que se contorcia em seus momentos de intimidade, falou, pausadamente:

– Menina, não se desespere. Eu não vou te abandonar. Vou contratar os melhores advogados e vamos provar sua inocência. Não tenha medo. Estarei te apoiando.

Enquanto era conduzida à delegacia, a garota do dragão sorria diabolicamente. Naquele momento pensou, como Blanche Dubois, que sempre dependera da bondade de estranhos.

4 ideias sobre “A moça do dragão

  1. Gostei, Márcia
    Agora você está na ficção, não é? Vá fundo, deixe a imaginação comandar. Você é boa em proza, em versos, no realismo e na ficção. Sou sua fã!

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