O dia seguinte

Deposito minhas armas.

 

Quando o vendaval passar,

teremos de reconstruir nossas casas,

recuperar as ruínas das nossas relações pessoais.

 

Depois que a tempestade acabar,

será hora de enfrentar os danos

e pagar a conta.

 

Quando a guerra findar,

os vizinhos terão que retomar a convivência

pacífica.

 

Por ora, fomos tomados pela febre.

 

Vertiginosamente,

rumamos, como soldados rasos,

oferecendo nosso peito às balas.

 

Em nosso regresso,

encontraremos os destroços de nossas amizades.

Ou nem eles…

 

Vitoriosos ou derrotados,

apenas uma certeza:

a vida continua.

 

E se eu vencer?

E se eu perder?

Como poderei seguir?

 

Com o final da guerra, haverá espaço para reconciliações?

No conflito, até famílias cindirão.

Quantos muros serão erguidos ao final?

 

O que esperar dos vitoriosos?

Grandeza para acolher as suas vítimas?

E os derrotados?

Serão capazes de perdoar seus algozes?

 

Desconfio dos discursos de ódio,

essencialmente mistificadores.

 

Mantenho minhas convicções,

a cada dia mais sólidas.

Não empunharei, porém, a lança envenenada

contra colegas, vizinhos, amigos, parentes.

Ou desconhecidos.

 

Luto por minha liberdade de pensamento.

E ela não permite que eu oprima a liberdade alheia.

A possibilidade de sobrevivência no pós-guerra

implora pela lealdade na escolha das armas.

 

Somos civis.

Deixemos que eles, guerreiros profissionais, batalhem até a morte.

 

A nós, meros cidadãos-eleitores,

restará viver o “dia seguinte”,

fruto da escolha da maioria.

4 ideias sobre “O dia seguinte

  1. PARABÉNS! Márcia, Gostei muito. Vou retratou muito bem o clima de campanha eleitoral. Muitos eleitores ficam cegos e no afã de defender seus candidatos, vão magoando todos os adversários eventuais como se fossem inimigos de infância.
    Abraços de Terezinha

  2. Olá Márcia,
    Seu texto, como sempre, está digno de elogios.
    Com palavras tão poéticas, você disse tudo…
    Respeitemos as opiniões alheias, mas não deixemos nunca, de defender as nossas!
    Beijos.

  3. Olá Márcia!
    Mais uma vez parabéns! Você foi no “x” da questão, quantos e quantos amigos ao final de uma eleição estão inimigos, pois no intuito de apoiar candidaturas e/ou partidos políticos, que no final das contas, não raro decepciona e muito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 + 14 =