João Ubaldo, cinema, filosofia…

Volto ao mesmo tema, por tantas vezes repetido neste blog: livros. Em agosto, durante o período em que permaneci afastada da escrita, retomei de forma um tanto frenética as minhas leituras. A maior parte dos livros tratavam de temas filosóficos.

A minha mãe, companheira de leituras, foi a responsável pela única obra de ficção lida nessa temporada: “Miséria e grandeza do amor de Bendita”, de João Ubaldo Ribeiro. Somos velhas fãs de sua obra: Sargento Getúlio, O sorriso do lagarto, Viva o povo brasileiro, A casa dos budas ditosos, O Diário do farol. Há muitos anos, criamos o hábito de emprestar à outra o último livro lido e, em seguida, comentá-lo, muitas vezes em longos (longuíssimos) telefonemas.

Certo dia, passei em sua casa e, antes que eu saísse, ela devolveu o livro que eu havia emprestado – O prisioneiro do céu, de Carlos Ruiz Zafón – e me entregou rapidamente o volume de João Ubaldo.

– Mas, mãe, eu tenho muitos outros livros para ler. Estou, inclusive, com livros emprestados em casa. Não posso começar esse antes de terminar aqueles que minhas amigas me emprestaram. – argumentei.

– Leve e leia quando puder. Mas leia e depois diga o que achou. – foi a sua resposta.

Desafiada, engatei imediatamente a leitura. E não foram necessários mais do que quatro dias para que eu telefonasse, vibrando:

– João Ubaldo era genial. Como ele sabia contar uma história! É, sem dúvida, um dos meus escritores favoritos. Eu ria sozinha enquanto lia. – falei.

– Eu não disse? – foi sua resposta.

Sutil e ironicamente, João Ubaldo nos envolve com uma história que, à primeira vista, pode soar banal: infidelidade. Urdindo delicadamente a trama, nos prepara para a surpresa final, tal qual um genial Hitchcock das letras. Altamente recomendado, embora praticamente desconhecido, “Miséria e grandeza do amor de Benedita” entrou para a lista dos livros mais divertidos que já li.

O restante do tempo de leitura foi dedicado à filosofia. Comentando a resistência dos seus garotos em estudar filosofia, o meu amado justificou: “Mas filosofia é muito chato mesmo”. E assim é a vida: o amor é muito grande, mas as diferenças existem, graças a Deus. São elas que temperam a vida. Apesar das opiniões divergentes, elegi três livros para as semanas de recesso do blog. Recomendo a leitura a todos que, como o meu par, não têm muita paciência para filosofia. Os três livros abordam temas profundos de maneira bastante acessível, analisando filmes e programas de TV ou apresentando questões da atualidade. Os livros escolhidos foram: “Filosofando no cinema: 25 filmes para entender o desejo”, de Ollivier Pourriol; “Mad Men e a filosofia”, organizado por Rod Carveth e James B. South; e “Contra a perfeição”, de Michael J. Sandel.

Eu já havia lido “Os Beatles e a filosofia” e, naquela ocasião, achei divertida a ideia de promover a aproximação entre Platão, Kant e Heidegger e a cultura popular. É o que faz Mad Men e a filosofia. Bem, até os amigos de minha filha já sabem que me viciei nessa série, que se passa em Nova York, durante a década de 60. Como eu já comprei outro livro sobre Mad Men, futuramente, em um único post, comentarei os dois livros e a série.

O livro de Pourriol, por sua vez, utiliza o cinema como veículo para apresentar diversas abordagens filosóficas sobre a origem e a natureza do desejo. Os 25 filmes analisados são: Juventude transviada (1955); O desprezo (1963); L’Enfer (1964 – inacabado); Blow-up, depois daquele beijo (1966); THX1138 (1971); Touro indomável (1980); Asas do desejo (1987); Ligações perigosas (1988); Cinema paradiso (1988); Ciúme (1994); Na roda da fortuna (1994); Cassino (1995); Toy Story (1995); Estranhos prazeres (1995); Fogo contra fogo (1995); De olhos bem fechados (1999); Bom trabalho (1999); Beleza americana (1999); Réquiem para um sonho (2000); Zoolander (2001); Jornada da alma (2002); Eros (2004); Menina de ouro (2004); Cruzada (2005) e A fantástica fábrica de chocolate (2005). Eu já assisti a 12 desses filmes e, após terminar o livro, espero em breve assistir aos demais. Infelizmente o livro, escrito em 2011, não contempla a obra de Lars von Trier, Ninfomaníaca. Talvez em alguma obra futura…

Esmiuçando cada filme, Pourriol discorre sobre os objetos do desejo, bem como sobre o desejo de reconhecimento, o desejo mimético, a loucura e o tempo do desejo, bem como sobre a vertigem do amor. Analisando o filme Asas do desejo, à luz do Górgias de Platão, dispara a certa altura:

“O sentido de uma vida não é completar-se de uma vez por todas, e o homem ficar satisfeito, preenchido, contente e tão morto quanto uma pedra, diz Cálices, mas ser arrebatado pelo rio, pelos vórtices do tempo. Não a vida julgada do ponto de vista da eternidade racional, mas a vida vivida do interior e segundo o ritmo. Uma vida feita de fome e de sede. Uma vida inquieta e rica dessa inquietude.”

O terceiro livro não trata de entretenimento ou obras de arte. O seu autor, um consagrado professor de filosofia em Harvard, é autor de uma obra que eu já comentei, “Justiça”. Em “Contra a perfeição”, Sandel discute bioética e, apresentando argumentos seculares contra o melhoramento genético, levanta discussão sobre eugenia e os limites morais da ciência. Destaco o seguinte trecho:

“Se a revolução genética erode nossa valorização do caráter de dádiva dos poderes e conquistas humanos é porque transforma três características cruciais de nossa configuração moral: a humildade, a responsabilidade e a solidariedade. Num mundo social que preza o domínio e o controle, a experiência de ser pai ou mãe é uma escola de humildade.”

Destacando o pensamento de Habermas, Sandel afirma:

“… a noção de que a nossa liberdade está inseparavelmente associada a um ‘início que não podemos controlar’ também carrega uma significação mais ampla: seja qual for seu efeito sobre a autonomia da criança, o impulso de banir a contingência  e dominar o mistério do nascimento apequena os pais projetistas e corrompe a experiência da paternalidade enquanto prática social governada por preceitos do amor incondicional.”

De maneira envolvente, Sandel apresenta as principais questões éticas relacionadas à engenharia genética, levando à conclusão de que ninguém é perfeito. E nem deveria ser…

Uma ideia sobre “João Ubaldo, cinema, filosofia…

  1. Olá Márcia!
    Pois é; foi você quem me ensinou a gostar de João Ubaldo. O primeiro romance escrito por ele que li foi “VIVA O POVO BRASILEIRO.” A partir daí não parei mais. Li todos os romances que o nosso saudoso João escreveu.
    Aprecio muito esse seu gosto por filosofia, mas não costumo ler. Meu irmão Rui e seu filho Lucas, gostam muito!
    Beijos.

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