Por trás de um sorriso

O tempo passa mas algumas coisas não mudam. O que muda é a nossa percepção ou a forma como ela é transmitida.

Quem viveu a felicidade de ter um amigo idoso vai me entender. E, quando digo idoso, não estou falando do conceito legal, contido no Estatuto do Idoso, destinado a regular prioridades e garantir direitos. Penso no idoso que povoa nosso inconsciente: avós e tios-avós com mais de 80 anos.

Uma tarde de bate-papo com alguém de uma geração mais antiga nos revela muito da vida e de nós mesmos. Veja o exemplo. A minha avó, do alto de seus noventa e poucos anos, resolveu contar a sua história, registrando-a para a sua descendência. Daí nasceu o primeiro livro de memórias, publicado em 2013. Agora, em 2014, entra em fase final de produção o segundo volume de sua saga. A maior parte das histórias contadas são bastante conhecidas pelos filhos e netos. Ou pelo menos por aqueles que, como eu, estavam constantemente em sua companhia. Reservou-nos, contudo, algumas revelações, como a gênese de seu amor por Joubert, do qual nasceram oito filhos.

Revelou os segredos de seu coração de moça, por décadas guardados a sete chaves. A primeira dança, a rival derrotada, o casamento sem a autorização da mãe. Enquanto o mundo se contorcia numa guerra sangrenta que, dentre seus resultados nefastos, levou ao extermínio de 6 milhões de judeus e à explosão de duas bombas nucleares, Peró vivia a sua história de amor. As duas primeiras filhas nasceram antes do final da Segunda Guerra Mundial. Após o final da guerra e até o golpe militar de 1964 nasceram seis rapazes.

Os segredos do coração de Peró, quem ousa desvendá-los? Ainda hoje, menina romântica, ela escreve versinhos para serem distribuídos entre as moças solteiras na noite de 13 de junho, durante a Festa de Santo Antônio. De quantas novenas participou, Peró? Foi adequadamente atendida pelo santo casamenteiro?

Entre versinhos e recordações, ela deixou escapar o ponto fraco de seu parceiro: ele era muito namorador. Ora, Dona Peró, isso não é revelação, sendo, desde sempre, do conhecimento de toda a torcida do Vitória e do Bahia (esta muito maior em número de integrantes). O que ninguém sabia, e que agora se revela, é que ela estava ciente, sim, das estripulias do seu amor. Não tenho dúvidas de que isso machucava muito. Para imaginar sua dor, basta que cada um experimente, apenas por um minuto, se colocar em sua posição. O que, então, sustentou o amor de Peró e Joubert durante os 56 anos durante os quais permaneceram unidos?

Existem muitas teorias. Alguns dirão que, naquele tempo, a mulher era criada para submeter-se ao marido e aceitar tudo, inclusive a sua infidelidade. Outros dirão que a religião mantinha os casais unidos, apesar das rachaduras no matrimônio. Haverá, ainda, quem, cético e materialista, diga que os casais não se separavam por razões financeiras – os muito pobres não podiam sobreviver separados, os muito ricos não queriam dividir a fortuna. Provavelmente todos estão certos e todos esses motivos contribuíram para mantê-los, Peró e Joubert, unidos durante mais da metade do século XX, enfrentando dificuldades de toda espécie. Acredito, porém, que havia mais.

O meu avô faleceu nos primeiros dias de janeiro do ano 2000. Ele não viu o século XXI e talvez não gostasse do que estamos vendo. Enquanto vivo, ele foi muito amigo do pai de minha filha. Eram confidentes. Certa vez, ele abriu o coração e revelou que Perolina foi a única mulher que ele amou em toda a vida. É claro que, jovens e tolos, não fomos capazes de compreender a força de tal revelação.”Ah! Quer dizer que foi a única que amou, mas nem por isso deixou escapar qualquer rabo-de-saia que desse moleza…”

Os anos passaram e muita coisa aconteceu na vida de todos que viveram os primeiros dias de 2000. Casamentos, nascimentos, separações, mortes, a vida de todo mundo seguiu. Hoje, olhando para trás e pensando neles, creio que a confissão de Joubert é a peça que completa o quebra-cabeça. Ela diz que ele só tinha um defeito: era muito namorador. Sim, é um defeito imenso, que causa uma torrente de sentimentos dolorosos. Peró, contudo, nunca foi amarga. Na mocidade, leram juntos os mesmos romances. Partilhavam de sentimentos e ideias. Recordo da rotina nos finais de semana, quando ela já havia rompido a barreira dos 70 anos de idade. Radiante, sorria, enquanto preparava o banho especial para Joubert, enquanto servia seu almoço, enquanto assistiam juntos à novela das oito. Joubert, por sua vez, jamais teve uma palavra áspera para a sua pequena pérola, a quem sempre se referia nos termos mais elogiosos, mulher inteligente, a única amada.

Então Peró sorria, como ainda sorri. Não me interessa a Monalisa. Quero conhecer o segredo por trás do sorriso de Peró.

 

7 ideias sobre “Por trás de um sorriso

  1. Excelente texto ! Gostei muito de ver você desvendando segredos tão bem guardados. Enquanto o mundo sofria com a mais cruenta das guerras, em São Bento do Inhatá, uma jovem filha de viúva, vivia um grande amor proibido. Emocionante! Estou ansiosa para conhecer o livro.

  2. Márcia querida, decididamente você é um dos meus maiores orgulhos! Escreve bem, demais!
    Eu só tenho uma resposta para tudo isso que você escreveu sobre Peró: O AMOR!

  3. Marcia como sempre você faz de uma palavra um texto, de um parágrafo um livro e o faz muito bem feito
    Adorei ler
    Bjs
    Marilu

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