A caixa (quarta e última parte)

Ainda não abrira totalmente a caixa quando todo o apartamento foi invadido por uma revoada de minúsculas mariposas e o nauseante odor de mandrágora. Assustada, esqueci-me da caixa, escancarei as janelas e liguei dois ventiladores, espargindo inseticida para todas as direções. O veneno sufocou-me. Abri a porta de casa e toquei a campainha do vizinho.

– Olá! Tudo bem contigo? – perguntou a vizinha, sempre amável.

– Por favor, ajude-me. A minha casa está cheia de mariposas fedorentas. Elas também entraram ai?

– Desculpe, mas não entendi. Do que está falando?

– Não está sentindo o mau cheiro? São elas.

– Estou sentindo muito cheiro de inseticida. O que está acontecendo? – perguntou a vizinha, enquanto me olhava, assustada.

– Venha ver. Elas estão por toda parte. – falei, arrastando-a até minha porta.

– Não vejo nada. – afirmou a vizinha, que, olhando-me assustada, permanecia estática à entrada da casa.

Realmente, não havia sinal de mariposas ou odor de mandrágora. Apenas a névoa de inseticida, que ainda não se dissipara, permanecia, como indício de que algo extraordinário havia acontecido. Desculpei-me com a vizinha, que, sem tecer qualquer comentário, voltou para casa, olhando-me de esguela.

Fechei a porta e, desolada, caminhei até a mesa, onde deixara a caixa já destrancada. A mesa estava vazia. A caixa havia sumido, com as mariposas e o odor fétido. Não conseguia entender o que podia ter acontecido. Eu havia permanecido ao lado da porta durante todo o tempo, sendo impossível que alguém tivesse passado por mim sem ser notado. Além disso, o apartamento, localizado no 13º andar, era inacessível pelas janelas.

Caminhei por toda a casa, procurando alguma pista do acontecido. Após uma busca minuciosa, constatei que todos os vestígios dos eventos fantásticos dos últimos meses haviam desaparecido. Não havia rastro de caixa, chave ou envelopes. Exausta, atirei-me sobre a cama, adormecendo em poucos minutos.

Outra noite sem sonhos. Noite de pedra.

Na manhã seguinte, acordei febril. A garganta ardia e todo o corpo doía, como se estivesse moída de pancada. Arrastei-me até o banheiro e, no espelho, deparei com uma fisionomia desconhecida. Profundas olheiras contornavam os olhos vazios, distantes. Um vinco profundo cortava verticalmente a testa. O cabelo, antes tão negro e brilhante, subitamente ficara grisalho e escasso. Naquela noite, envelhecera vinte anos.

Recordando os eventos da noite anterior, revirei o apartamento, na vã esperança de encontrar a misteriosa caixa. As janelas, que haviam permanecido abertas durante a noite, deixavam entrar a suave brisa que prenuncia um temporal. No fundo do armário, onde por tanto tempo havia conservado a caixa, agora restava o espaço vazio. Tomada por um forte sentimento de culpa, peguei o telefone:

– Bom dia! Eu queria notícias do rapaz que faz as chaves e foi atropelado ontem,

– Como? Atropelado ontem? Esse Jairo é um safado mesmo… – respondeu a voz feminina do outro lado da linha.

– Ele havia combinado fazer um serviço em minha casa mas se atrasou e me disseram que havia sofrido um acidente no caminho. – prossegui.

– Escute só. – disse, ameaçadora, a voz do outro lado da linha. – Eu sei muito bem o tipo de serviço que ele costuma prestar em domicílio a outras sirigaitas como você. Vou te avisar: ele é casado e tem quatro filhos.

– Senhora, há um mal-entendido aqui. Não precisa temer por seu casamento. Eu apenas pedi ao chaveiro que viesse em minha casa abrir um armário cuja chave estava quebrada. A senhora podia vir acompanhando, se quisesse.

– Sei… Agora ainda essa desculpa esfarrapada. Atropelado… Só me faltava essa.

– Por favor, apenas me diga uma coisa. O seu marido não foi atropelado ontem? Não está hospitalizado?

– Atropelado… Essa é boa. Bem que ele merecia. Aquele vagabundo chegou da farra às 5:30h da manhã, fedendo a cachaça e perfume barato. Com a ressaca que vai acordar, o dia já está perdido para o trabalho.

– Obrigada. – respondi, aliviada, enquanto desligava o telefone.

Apesar do alívio em saber que o chaveiro não estava machucado, persistia a sensação de que havia um peça solta nessa história. Se, de fato, o chaveiro me pregara uma peça, enquanto escapulia para a boemia, quem havia atendido o telefone, informando o acidente? E quem havia escrito o bilhete entregue pelo menino Rycharlysson? A reação indignada da suposta esposa do chaveiro não bastava para afastar as dúvidas que me assombravam. Decidi tirar a limpo a história do bilhete.

Cuidadosamente prendi os cabelos e coloquei um boné, de modo a disfarçar os recentes fios brancos. Após esconder-me atrás de imensos óculos escuros, saí, em direção à barraca de bolos. Ali encontrei Dona Sonia, conhecida em todo o bairro pelo talento culinário e apreço por jovens rapazotes. Sem querer trair meu interesse e apreensão, perguntei:

– Bom dia, Dona Sonia! A senhora tem bolo de tapioca?

– Claro, moça. É uma das minhas especialidades. Vai querer pequeno, médio ou grande?

– Basta um pequeno. Moro sozinha.

– Aqui está seu bolo. – respondeu, enquanto me estendia o bolo acondicionado numa bandeja de isopor cuidadosamente embalada com filme plástico.

– Obrigada. – respondi, enquanto entregava o dinheiro. – E o seu menino, como vai?

– A senhora conhece o Rycharlysson?

– Claro. Ele está sempre por aqui, não é mesmo?

– Hoje, não. Amanheceu com uma febre alta e a garganta inflamada. Nem foi pra escola. Mas é um bom menino. Prestativo, trabalhador.

– Ele não foi ao médico? – perguntei, um tanto assustada.

– Nem precisa. Já tomou um chá forte e logo, logo estará bem. Ele ainda vai buscar o pagamento de uma entrega que fez ontem.

– Ele faz entregas de bolos?

– Não foi bolo. Um sujeito alto e magro prometeu pagar dez reais se ele entregasse um bilhete para uma mulher.

– Quem é esse homem? A senhora conhece?

– Eu nunca vi antes. Ele foi embora antes que o Rycharlysson voltasse, mas prometeu vir pagar os dez reais. Com tanto mistério, só pode ser rolo com mulher casada.

– Obrigada pelo bolo e melhoras para seu filho. – respondi rapidamente, apressando-me em sair, pois desconfiava que a tal figura esquisita não voltaria à barraca de bolos se eu ali permanecesse.

Entrei na padaria do outro lado da rua. Pedi um misto quente e um café com leite e, estrategicamente, sentei-me ao lado da porta, observando a barraca de Dona Sonia. Após cerca de dez minutos, um homem alto e elegante saltou de um carro, aproximando-se da barraca. Observei-o, enquanto falava com Dona Sonia, que apontou para mim.

Gelei ao cruzar o seu olhar. Aguardei paralisada enquanto ele atravessava a rua, vindo em minha direção.

– Bom dia. – cumprimentou-me, sorrindo.

– Bom dia. – respondi.

– Você está esperando há muito tempo?

– Como? Eu nem te conheço. – retruquei, assustada.

– Tudo bem. – disse-me, com voz macia. – Você sabe como isso funciona. Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.

Não ofereci resistência quando ele me deu a mão, conduzindo-me até o carro, que aguardava estacionado na esquina. Obediente, sentei-me no banco traseiro, enquanto o estranho homem sentou-se no banco do carona e ordenou ao motorista que partisse. Logo chegamos à já conhecida casa à qual por tantas vezes já fora conduzida.

Mais tarde, no consultório tão familiar, eu insistia:

– Acredite, doutor, foi isso que aconteceu comigo. Exatamente do jeito que contei. É tudo verdade. Eu não sei porque me trouxeram para cá. Eu estou bem. Estou bem mesmo. – dizia ao psiquiatra que, tranquilamente, tomava notas de mais um de meus delírios.

FIM

3 ideias sobre “A caixa (quarta e última parte)

  1. Olá Márcia! ´
    Acompanhei a Caixa Misteriosa, gostei muito. A ficção acho que veio para ficar, não tenho dúvidas que logo teremos novidades. Parabéns!

  2. Márcia
    Gostei da sua história, mas não li a 3ª parte, não encontrei no meu e-mail nem no Face.
    O estilo seriado é interessante, mas tem este inconveniente de se perder o fio da meada. Então foi um delírio ?!
    Beijos de Terezinha.

  3. Olá Márcia, gostei do desfecho. Pensei em tudo, só não imaginei que a personagem fosse doida de pedra!
    Continue enviando mais textos como este. Você leva jeito!
    Beijos.

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