A caixa (terceira parte)

Ao chegar em casa, novamente encontrei o porteiro, que me aguardava com uma outra encomenda. Desta vez, uma carta simples, com selo e carimbo como já não existem mais em tempos de comunicação eletrônica. De fato, há muitos anos eu não recebia cartas. Pelo correio, apenas boletos bancários e folhetos de publicidade. Recebi a carta e, entrando em casa, joguei a bolsa sobre o sofá, sentando-me, ao mesmo tempo em que abria o envelope cinzento. O remetente era o mesmo: “Incógnito. Caixa Postal XXX, São Paulo-SP.” Dentro, apenas uma folha de caderno, que trazia a mensagem:

Você foi escolhida.

Deve ter notado uma grande mudança em sua vida desde que aceitou o meu presente. Aguarde, pois reservo maravilhas para a sua jornada.

Em breve, receberá a chave que abre a caixa. Deverá, contudo, mantê-la trancada.

Não esqueça! Coisas terriveis acontecerão se ela for aberta sem a minha ordem ou permissão.”

Guardei a carta no envelope e coloquei-o ao lado da caixa, no fundo do armário. Inexplicavelmente, logo em seguida já não pensava na mendiga, na caixa ou na carta.

Passaram-se alguns meses sem que a rotina de paz e boa disposição fosse quebrada por qualquer intercorrência. Havia esquecido da caixa e da chave. Com a proximidade do final de ano, decidi decorar a casa para o Natal. Enquanto procurava os adereços que ornamentariam a árvore de Natal, deparei com a caixa, que serenamente repousava no fundo do armário. Cansada daquela palhaçada, resolvi me desfazer do sinistro presente. Após uma pequena busca, encontrei o cartão com o telefone do chaveiro. Perguntei se ele atendia em domicílio. À vista de sua confirmação, dei-lhe meu endereço e pedi prioridade no atendimento. Estava decidida a arrombar a fechadura da caixa e acabar com aquela brincadeira de mau gosto.

O interfone tocou. Corri para atender e autorizar a entrada do chaveiro. O porteiro avisou que haviam deixado uma correspodência com uma etiqueta de urgente. Desci para buscá-la, abrindo-a ainda no elevador. Um pequeno bilhete acompanhava a chave.

Que menina desobediente… Um pouco de paciência teria poupado o pobre rapaz.

Liguei, assustada, para o telefone do chaveiro. Uma voz abafada, chorosa, atendeu:

– Não, ele não pode atender. Foi atropelado quando saía para atender o chamado de uma dona. Não, está vivo. Muito machucado, mas vivo. A ambulância levou para o hospital, mas tão cedo não poderá voltar ao trabalho.

Apavorada, desliguei o telefone. O coração batia aceleradamente. Minhas mãos tremiam. Fui tomada por uma onda de náusea. Após beber um grande copo d’água, sentei-me e reli o bilhete. Desta vez, o envelope não trazia o remetente. Parecia ter sido escrito às pressas. Interfonei para a portaria, indagando ao porteiro sobre a maneira como aquele bilhete fora entregue.

– Um garoto deixou aqui.

– Como era esse garoto? Você já o viu antes?

– A senhora conhece. É o Rycharlysson. O filho da moça que vende bolos caseiros ali na frente do mercadinho.

– Quando ele aparecer, diga que venha falar comigo.

– Certo. Foi algum problema com a carta que ele entregou? Porque, se foi algum desaforo ou, pior ainda, alguma corrente, eu mesmo posso dar uma bronca nele, se a senhora quiser.

– Calma, Seu Antonio. Não vá criar caso com o menino. Só quero saber quem mandou a carta. Basta me avisar quando ele aparecer.

– Pode deixar. Se ele aparecer por aqui, eu aviso.

– Obrigada.

– Por nada.

Encerrada a minha investigação, examinei a chave. Bastante decorada, com um entalhe rebuscado e uma franja de seda que pendia à guisa de ornamento, trazia recordações de tempos já findos. Exatamente como a caixa. Sem mais delongas, destranquei a caixa misteriosa.

(continua…)

3 ideias sobre “A caixa (terceira parte)

  1. Aguardo…
    Gosto tanto, que consigo controlar a ansiedade… Os detalhes me interessam mais neste momento.
    Beijos.

  2. Márcia, você está nos torturando! Eu li, certa que saberia agora qual seria o mistério da caixa.
    Tudo bem, vamos aguardar o desenrolar da história, que está ficando bem interessante!
    Até a próxima semana…
    Beijos.

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