A caixa (segunda parte)

 

Chamei o elevador, levando para casa o pacote suspeito e uma pequena bandeja de croissants que seriam o meu jantar. Chegando em casa, depositei o embrulho e os croissants sobre a mesa, enquanto tirava os sapatos e pendurava a bolsa. Acendi todas as luzes, atravessei o corredor e entrei rapidamente no banho. A água morna, batendo em minha nuca, distraiu-me de temores e suspeitas. Ao menos durante alguns minutos. Sai do banho, coloquei o pijama mais confortável e dirigi-me à cozinha. Ao passar pela sala, vi o pacote, que, tranquilamente, me aguardava, pousado sobre a mesa.

Hesitei, por um minuto. Logo decidi abrir o pacote e acabar com o suspense. Nesse instante, senti um arrepio na espinha ao escutar a voz, rouca e pausada, que dizia: “Tem certeza de que vai abrir? Não sacuda. Pode ser nitroglicerina. Pode ser uma bomba. Pode conter antraz.” Sentei lentamente na cadeira, pegando o embrulho em meu colo. De onde sairam essas ideias loucas sobre bombas e venenos? Eu não gozava de nenhuma intimidade com laboratórios químicos ou biológicos, extraindo de telejornais e filmes de ação todo o conhecimento acerca de substâncias explosivas ou letais.

Cortei a fita adesiva que fechava o pacote, desdobrando cautelosamente o papel pardo. Como pressentira, o embrulho ocultava uma caixa de madeira escura entalhada. No tampo, entre folhagens e ramos de flores, ocultavam-se pequenos anjos de cabelos encaracolados, portando enfeitiçadas flechas do amor. Toda a caixa apresentava um aspecto rebuscado, que remetia a épocas passadas. Exalava um suave perfume de lírios, que, com o tempo, destacava uma nota enjoativa, rescendendo a velórios.

A caixa possuía uma fechadura delicada mas eficaz e, sem a chave adequada, constatei a impossibilidade de desvendar, por enquanto, o seu mistério. Resolvi guardar a caixa, enquanto não descobria algum meio eficiente de abrir a fechadura. Como já era esperado, não consegui conciliar o sono, tentando imaginar a origem de tão estranho presente e, mais importante naquele momento, o local onde poderia encontrar a chave misteriosa.

Na manhã seguinte, acordei cedo, preparando-me para ir à academia e, ao passar pela sala, vi a caixa sobre a mesa. Sem pestanejar, tratei de escondê-la no fundo do armário do quarto.

No horário do almoço, decidi visitar uma antiga galeria de serviços próxima ao trabalho. Sem querer revelar detalhes sobre a caixa misteriosa, inventei uma história sobre a fechadura de um armário que necessitava de reparo. O chaveiro prontificou-se a me acompanhar e abrir o armário. Recuei, guardando seu cartão de visita e prometendo ligar para combinar o atendimento.

Naquela noite, ao chegar em casa, notei que, ao contrário do que ocorria todos os dias, não havia pó acumulado sobre os móveis, o chão brilhava, as janelas reluziam. Estranhei, pois há duas semanas a casa não recebia a visita da faxineira.

Tomei banho, jantei, peguei um livro e, antes que chegasse à segunda página, adormeci profundamente. Uma noite sem sonhos.

As noites seguintes foram de uma paz angustiante. Os dias, por sua vez, correram acelerados como uma montanha russa fora de controle. Eu acordava bem disposta, obtendo um destacado desempenho atlético em minhas atividades físicas, antes tão limitadas. Tomada por incontida energia e bom humor, duplicava, triplicava minha presença na loja, em frenesi apenas interrompido quando algum colega, zeloso de suas comissões, alcançava o cliente antes de minha abordagem.

– Assim vai mal. Antes era aquela songa-monga, encostada, que não queria trabalhar. Agora, esse desespero. Não faço ideia do tipo de remédio que esse médico passou para que mudasse assim. Algum antidepressivo muito potente. – queixou-se a funcionária responsável pelo caixa, recordando meu passado sombrio.

– Remédio? – retorquiu a outra veterana, antiga campeã de vendas. – Acho que está consumindo alguma substância ilícita. Somente hoje ela já atravessou meu caminho duas vezes. Se continuar assim, esse mês minha comissão vai ser mixuruca. Ela não respeita nosso rodízio. Se eu me distraio um pouco, quando vejo ela já fez a venda.

Indiferente à indisposição que meu ímpeto causava entre meus pares, permanecia alerta. Quando não atendia ao público, arrumava as estantes e displays, organizava o estoque. Naquela noite, ao final do expediente, despedi-me dos colegas, que responderam com um resmungo, e corri ao ponto de ônibus, decidida a pegar o carro das sete horas. Sob a cobertura do ponto de ônibus, uma mulher maltrapilha abordava as pessoas, pedindo esmolas. Ainda faltavam cinco minutos para as sete horas, mas, embora o transporte público primasse pela incapacidade em cumprir horários, nesse dia, o ônibus havia passado pouco antes de minha chegada. Resignei-me em esperar o próximo carro, que só viria dali a meia hora. Subitamente, a parada de ônibus ficou vazia. Apenas eu e a pedinte permanecíamos sob a cobertura. Ouvi a sua voz gutural, acompanhada de um forte bafo de pinga:

– Não recuse a oferta do Desconhecido.

– Do que está falando? – perguntei, assustada.

– Não seja ingrata. Acolha-o. – disse, enquanto se afastava rapidamente.

Incapaz de detê-la, cai sentada no banco, buscando sentido para as suas palavras enigmáticas. Começou a chover e logo a parada voltou a ficar cheia de gente, em busca de abrigo ou transporte. O meu ônibus não tardou e voltei para casa sobressaltada, buscando, ao meu redor, novos personagens daquela cena.

(continua…)

 

3 ideias sobre “A caixa (segunda parte)

  1. Márcia.
    E o suspense permanece até a próxima semana, que vai demorar mais de passar, devido à nossa curiosidade.
    Estou gostando do seu novo estilo à la Edgard Allan Poe. Deixa-nos ansiosos pelo resultado.
    Beijos de Terezinha.

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