A caixa (primeira parte)

Não sei exatamente quando começou a soprar seus segredos em meus ouvidos. Há algum tempo já suspeitava da sua presença. Sentia que me espreitava, insinuante, nas mais corriqueiras situações. Sem que me desse conta, deixei de utilizar facas pontiagudas, aproximar-me de sacadas. Cautelosamente atravessava as ruas, evitava escadas íngremes. Uma sombra se ocultava em cada esquina, aguardando um descuido, confiante em minha incapacidade de prever o imprevisível, o fortuito, o acidental. Às vezes, na academia, na rua, no shopping, percebia o olhar mais insistente de um desconhecido, que, ao se ver descoberto, com presteza voltava-se para o outro lado.

Não recordo o exato momento em que as vozes começaram a ecoar em meus ouvidos. A princípio, não dei muita atenção, mas, depois de algum tempo, passei a temer que fossem sintomas de alguma doença psiquiátrica. De tanto assistir a filmes de terror, vivia assombrada com a ideia de espíritos maus, exorcismos e psicopatas que invadem os sonhos. Dormia mal, sofrendo com pesadelos recorrentes. Ao amanhecer, contudo, não mais recordava o que havia me assustado durante o sono. As olheiras profundas denunciavam a insônia persistente.

No trabalho, os colegas comentavam. O gerente, preocupado com a queda na produtividade, mandou que procurasse um médico. Saí do consultório com a prescrição de um sonífero e uma recomendação:

– Faça atividade física, alimente-se bem, procure fazer coisas que divirtam e, se não estiver dormindo bem em duas semanas, procure apoio psicológico.

Rebelde, joguei a receita fora e mantive minha rotina. Dormia mal, comia mal, perdia peso rapidamente. Em pouco tempo, ostentava uma silhueta doentia, com olheiras profundas. Questionada sobre as orientações médicas, menti. Afirmei que vinha seguindo as recomendações do clínico e já estava bem melhor, embora a minha aparência insistisse em me contrariar.

Subitamente, o vulto parou de me seguir. Passaram-se meses sem que ouvisse os seus sussurros. Voltei a dormir serenamente, sonhando com campos floridos, crianças risonhas e brownie com sorvete. Recuperei o aspecto saudável e, em pouco tempo, ninguém lembrava de meu semblante cadavérico, insone, assustado.

Foi numa manhã de abril, enquanto tomava banho, que escutei a campainha do telefone, tocando insistentemente, até cair na secretária eletrônica. O telefone tocou mais uma dezena de vezes. Ao sair do chuveiro, acionei o resumo das ligações recebidas e contabilizei onze chamadas perdidas originadas de um mesmo número. Chamada à distância. Nenhuma mensagem de voz. Sem reconhecer o número que discara, dediquei-me às atividades corriqueiras, vestindo-me, tomando café, pegando a bolsa e saindo para o trabalho, já preocupada com o trânsito.

O dia foi agitado, como sempre. Com a proximidade da Semana Santa, o fluxo de clientes em busca de ovos de Páscoa e chocolates finos aumentara demasiadamente. À noite, ao chegar em casa, exausta e sonhando com um banho morno e a cama macia, fui interceptada pelo porteiro, que informou a chegada de um embrulho em papel pardo. Como destinatário, vi meu nome grafado em caixa alta. No espaço destinado ao remetente, lia-se apenas: “Incógnito. Caixa Postal XXX, São Paulo-SP.”

O pacote, meticulosamente lacrado, não denunciava seu conteúdo. Eu, por meu lado, não esperava nenhuma encomenda. Aliás, esperava, sim, umas bugigangas da China, compradas há mais de dois meses pela internet e que já perdera as esperanças em receber. “Pelo menos elas haviam custado uma bagatela. Perdi pouco”, pensava, consolando-me. Tornei a olhar o pacote. Era uma caixa pesada. Podiam ser livros, já que costumava comprá-los pelo computador. De onde viriam esses, se não recordava nenhum pedido pendente de recebimento? Percebi que porteiro me olhava impaciente, aguardando que, finalmente, eu assinasse o protocolo de entrega. Lancei meu nome na caderneta de registro de encomendas e peguei o meu pacote.

(continua no próximo domingo)

3 ideias sobre “A caixa (primeira parte)

  1. Márcia.
    Gostei do seu novo estilo, agora é a prazo. Os seriados são sempre aguardados com muita ansiedade.
    Quando eu era criança, na minha cidade, passavam seriados que faziam o deleite da gurizada. Eles terminavam sempre num grande suspense. Havia um chamado “Os Perigos de Nyoka”. Levávamos uma semana pensando como seria a escapada da nossa heroína, como ela se livraria da jaula do leão, ou da bocarra do jacaré?
    Um forte abraço
    De Terezinha

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