“Não ria, o caso é sério”, por Terezinha Maria Pinto da Silva

Que alegria! Passado mais de um ano, volto a contar com a colaboração de minha querida tia Terezinha, minha assídua leitora e frequente, embora oculta, fonte de inspiração. Eis o seu texto, para nossa diversão:

Quando eu era criança me divertia bastante com os casos de minha avó, a paterna, pois a materna era muito severa, não gostava muito de brincadeiras com crianças, para não dar ousadia.

A severidade e a falta de humor de Nonô (era assim que chamavam nossa avó materna, cujo nome de batismo era Maria Leonor), tinham razão de ser: Ela ficou viúva ainda muito jovem (casara com dezessete anos), e ficou com a incumbência de criar dez filhos. Antes dos métodos anticonceptivos, quase todas as famílias eram muito numerosas. Na época não havia leis trabalhistas. Getúlio Vargas ainda não tinha instituído a CLT. Portanto, não havia aposentadoria nem pensões para órfãos e viúvas.

Foi uma luta titânica a alimentação, instrução, educação e formação moral de uma prole tão numerosa. A disciplina em casa era própria de um quartel. Era regime militar mesmo! Só a matriarca ditava as ordens, pois ela tinha sobre os ombros todo o ônus de prover a subsistência da família, além de passar todos os conceitos morais (bem rigorosos) da época.

Não estou recriminando minha avó materna, pelo contrário, nas circunstâncias em que vivia não podia ser diferente. Eu mesma lhe devo muito, pois ainda adolescente, fui morar em sua casa para poder continuar os estudos, pois desejava estudar medicina. E consegui, com o seu apoio. A ela a minha eterna gratidão.

Voltando à minha avó paterna, seu nome era Maria das Dores, para nós, os seus netos, era apenas Dás.

Ela contava uma história “verídica” de uma moça muito recatada que rompeu o noivado por causa de um “pum”. Isso mesmo, um inocente flato. Coisa tão comum, tão natural, tão fisiológica e, ao mesmo tempo tão antissocial. A moça era uma dama da alta sociedade, fina, educada, bem prendada, mas tinha um defeito, era gulosa. Por conta desse pecado capital, volta e meia estava tendo indigestão com meteorismo e flatulência. No dia seguinte de uma “farra” gastronômica o noivo foi visitá-la. Estava tudo indo bem, mas para sua infelicidade um flato saiu do seu controle e chegou ao conhecimento do noivo, através do ruído característico e do nauseabundo cheiro de ovos podres. Foi um vexame total. A moça não teve outra alternativa a não ser fugir. O pretendente era um doutor com futuro promissor, mas a noiva nunca mais teve coragem de encará-lo. Só não sei se havia amor entre eles, pois nessa época os sentimentos não contavam, os casamentos eram arranjados pelos pais.

Minha avó Dás tinha muitas outras estórias: Ela contava que na mocidade sempre fora muito séria, não andava dando ousadia pra nenhum rapaz, só andava de cara amarrada, pois uma moça direita tinha que ser bastante séria. Aí nós perguntávamos: séria ou antipática?

– Antipática não, séria. Respondia ela convicta.

Ela contava que estava viajando de vapor (até hoje não sei que tipo de transporte era o vapor) e um rapaz a estava cortejando, fazendo elogios e todo tipo de galanteios; ela se mantinha sempre muito afastada olhando a paisagem através da janela. Em certo momento, sentiu a falta de uma pulseira de ouro que trazia no antebraço esquerdo. O rapaz gostou, riu muito e disse:

– Bem feito, quem manda não sair da janela!

Com o passar do tempo as coisas vão mudando e os costumes também; entretanto no fundo, no fundo as pessoas são as mesmas.

Recentemente estava com algumas amigas num bate papo descontraído. Conversa vai, conversa vem, cada uma de nós contava as gafes já cometidas.

– Outro dia, – conta uma amiga – eu paguei o maior mico de minha vida: apareceu um senhor idoso com uma jovem adolescente, e esta com bebê que trouxe para ser consultado, pois estava com diarreia. Examinei o bebê com todo cuidado, orientei a mãe e depois virando para o senhor, o tranquilizei: pode ficar sossegado, seu netinho não tem nada demais, vai ficar bom já. Disse netinho, mas o velho tinha cara de bisavô do garotinho. O velho todo orgulhoso disse: fico muito satisfeito doutora, mas Juninho não é meu neto, ele é meu filho. Fiquei envergonhada, mas depois pensei: quem devia sentir vergonha era ele, pois cometeu pedofilia ao casar-se com pessoa tão jovem.

Atualmente com a liberação dos costumes acontecem coisas inusitadas: Meu marido estava trabalhando num plantão agitado de domingo, quando aparece um casal: ela toda dengosa, dizendo que estava sentindo cólicas e ele preocupado dizendo: acho que ela está abortando! Examinando melhor, ele percebeu que eram homens, ou melhor, um casal homoafetivo. A pretensa mulher, por sinal, muito bonita, usava maquiagem e roupas femininas, dava pra enganar, mesmo!

Outra vez, foi uma sisuda professora que numa festa de casamento cutuca uma pessoa ao seu lado para chamar a atenção para a barriga de cinco meses da noiva. Ela estava certa que era sua irmã que estivera sentada ao seu lado o tempo todo, só que esta se ausentara momentaneamente, e na sua cadeira estava sentada uma pessoa da família da noiva. Foi um vexame. Mas a professora tinha o raciocínio rápido e na mesma hora conseguiu contornar o deslize, porém não impediu que ela passasse vergonha.

A vergonha é uma das sensações mais desagradáveis que existe. São conhecidos o rubor da face e o sorriso amarelo das pessoas envergonhadas

Tem situações em que o indivíduo se sente tão mal que gostaria de evaporar, desaparecer! São típicas as reações das crianças envergonhadas ao esconder o rosto numa tentativa de não serem reconhecidas

Alguns netos meus levam tombos e levantam numa boa, mas quando são observados por pessoas estranhas, desandam no choro.

E assim de gafe em gafe, de deslize em deslize caminha a humanidade. Todos no mesmo barco, sujeitos a passar as mesmas vergonhas, necessitando da compreensão e benevolência uns dos outros. Hoje por mim, amanhã por ti. Deve ficar claro, não somos uns melhores que os outros. Podemos ter mais dinheiro, mais educação, mas somos humanos. Nenhum de nós está imune a um distúrbio gastrointestinal.
Portanto, não ria que o caso é sério!

4 ideias sobre ““Não ria, o caso é sério”, por Terezinha Maria Pinto da Silva

  1. Lucinha
    Gostei dos seus comentários. É gratificante ficar sabendo que alguém lê as nossas ” mal traçadas linhas”.
    Fiquei surpresa com o comentário de Marli, não sabia que ela tinha acesso ao blog de Márcia. Ela contou também um caso muito engraçado do acervo de tia Hilda. Gostaria de ter o e-mail dela para podermos nos comunicar.
    De quaquer forma, se você tiver acesso, diga-lhe que fiquei muito satiafeita e que tenho vontade de ter mais contatos com a família, pois sinto saudades.
    Um caloroso abraço de Terezinha.

  2. Li o texto escrito pela minha adorada prima e madrinha Terezinha, confesso que o texto agradável e me fez lembrar, casos semelhantes que mãe contava.
    Uma certa prima, muito prendada, estava noiva de um rapaz rico, muito bonito. Nos finais de semana ele sempre vinha para São Bento para visitar a noiva, conversar com a família etc… A noiva, bordava muito bem, tanto que o enxoval foi todo preparado por ela, com inspeção da mãe que também era uma bordadeira de mão cheia. Porém a noiva era motivo de ciúmes de uma prima que não estava mais conseguindo disfarçar o interesse pelo noivo da prima. O tempo foi passando e a medida que a data do casamento ficava mais próxima, a aflição aumentava. Então surgiu a idéia. O noivo sempre que chegava, encontrava a noiva aplicada, dedicada costurando enxoval. A prima invejosa, aproximou-se da noiva e a cada distração escondia uma agulha, linha tesoura. A noiva tentando mostrar a cada dia mais suas habilidades, foi ficando nervosa, nervosa, a ponto da prima convençer o noivo que aquele problema era mal de família e a tendência era a loucura. Com esse depoimento o noivo desistiu do casamento. E mãe contava que a noiva realmente ficou com o “juizo fraco”.

  3. Tereza,
    Hoje ao acordar, ainda rindo do seu texto, lembrei da mocinha que passou tamanho vexame diante do noivo…
    Não sei se foi a mesma moça ou outra; mas a verdade é que as personagens de Dás eram muito gulosas, ou tinham sérios problemas digestivos.
    Esta, estava tirando o soninho da beleza, (aquele sono depois do almoço.) Chega o noivo, apaixonado como era, ficou encantado ao ver a amada a dormir. Tão inocente… ele sentiu uma grande ternura.
    De repente a mocinha levantou os quadris e soltou um pum, tão alto que parecia uma bomba. O noivo discretamente retirou-se.
    O pior, foi que alguém contou à moça quando esta acordou. Ela ficou desvairada. Por pouco, não comete uma loucura. Nunca mais quis saber do noivo.
    Desculpe mana. Foi só para não perder o costume de competir com você.
    Beijos da irmã que te ama muito,
    Lucinha.

  4. Tereza,
    Não adianta você dizer que o caso é sério, pois já ri demais lendo o seu texto. É verdade, nossa avó Dás era uma grande contadora de casos; todos muito engraçados.
    Eu lembro de um caso que Dás contava; era sobre uma senhora que enganava o marido. Ela deu queixa na delegacia, dizendo que um sujeito a estava difamando.
    O suposto difamador foi chamado para prestar depoimento. Então ele disse diante de todos.
    -É verdade senhor delegado, eu a vi com um homem no mato. Então o delegado o repreende dizendo:
    – Senhor fulano! senhor fulano!… Não é tudo que se vê que se fala…
    A nossa avó Dás às vezes era bem divertida!
    Quanto às gafes, já cometi tantas, que vou precisar de um espaço maior para contar. Um dia farei isso.
    Gostei muito do seu texto.
    Beijos para você e para Márcia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

18 + um =