À beira do abismo

Recentemente, os jornais noticiaram com grande estardalhaço o horror do linchamento de uma mulher que teria sido confundida com uma sequestradora de crianças. Quase no mesmo dia, divulgaram outro caso de apedrejamento, dessa feita promovido por duas adolescentes enciumadas. O horror causado pela violência ensejou reações variadas em redes sociais e veículos de comunicação. Passada uma semana, tudo jaz esquecido. Os mortos estão enterrados; os agressores talvez presos, talvez livres. A vida seguiu o seu rumo. Da violência que chocou a população, resta a dor da família.

Não sobrou vestígio do espanto pelos atos de selvageria, afinal, há novos horrores a compartilhar. A pobre mulher teve o corpo queimado com água fervente porque tardou em servir o café ao patrão. A polícia confirmou que o pai e a madrasta tramaram a morte do garoto Bernardo e os deputados, sempre oportunistas, rebatizaram a “Lei da Palmada” como “Lei Menino Bernardo”. O Presidente do TSE mandou libertar um deputado acusado de desviar dinheiro público. A Copa do Mundo de Futebol de 2014 vai entrar para a história como a Copa mais cara de todos os tempos. As prometidas obras de infraestrutura não ficaram prontas. A cada segundo, noticia-se uma nova tragédia, um novo escândalo, mais uma calamidade a ofuscar a anterior. O que virá em seguida?

A torrente de desastres e maldades invade a vida particular, através do rádio, televisão, internet, impedindo a ignorância. Não é mais possível desconhecer os limites do abismo em que caminhamos. Tal consciência abriga uma perigosa armadilha. A avalanche de notícias ruins eleva o nível de estresse, assombrando a vida. O que antes era comum – caminhar à beira-mar, sair à noite com os amigos – torna-se uma arriscada aventura. Assustadas, mães e avós rezam, incessantemente, pelo retorno de sua descendência, sã e salva, após cada passeio, após cada festinha. Como sobreviver imerso em tanto medo?

Há poucos meses, li uma noticia diferente no jornal. O endereço trazia a poesia no nome: esquina da Rua da Poeira com a Rua do Vintém. Em meio ao desespero e à tristeza, com a destruição do imóvel em que viviam 28 famílias, o incêndio que destruiu um casarão na Baixa dos Sapateiros revelou um pequeno herói. O garoto de 13 anos salvou a vida da irmã, utilizando uma técnica aprendida na escola.

A fuga do cenário de destruição pareceu extraída de um filme de ação. Como o fogo já havia atingido o andar térreo do casarão, o garoto acordou a irmã de 9 anos e, cobrindo os seus rostos com panos molhados, empreendeu uma espetacular fuga pelo telhado. Caminharam entre telhas que se despregavam até chegar à casa vizinha e dali escaparam para a rua. A mãe das crianças, que trabalhava como cuidadora de idosos, não estava em casa na hora do incêndio. Ao deparar com o cenário de destruição, descobriu que seu filho era um herói.

A todo momento, heróis anônimos realizam atos de bravura, apoiando, socorrendo, colaborando com o bem-estar comum. Raramente seus feitos são noticiados. Cada pequeno gesto de generosidade, de abnegação, de compreensão transforma o mundo. Se o Mal existe e está presente, há de se combatê-lo com o Bem. É preciso buscar inspiração para ser maior e melhor. “Posso ajudá-lo?” Quanta magia se esconde em tão poucas palavras.

É fácil apenas reclamar da vida, do trânsito, do governo, do patrão. É inevitável assustar-se com a violência cotidiana, com os perigos ocultos em cada esquina. É compreensível um certo ar de desespero que paira sobre a população. O Mal existe, não há dúvida. Ele está potencialmente presente em cada um de nós, a quem cabe decidir abri-lhe ou não as portas.

Difícil é ser diferente. Difícil é fazer a diferença. Ceder a vez e não disputá-la. “Por favor, pode passar.” Trabalhar com alegria, reconhecendo a fortuna de gozar de boa saúde. “Você está de parabéns!” Relevar as tolices que muitas vezes somos forçados a escutar. “Desculpe, não foi por mal.” Usufruir a felicidade que brota das atitudes mais singelas. “Bom dia, vizinho!”

Outro dia, após abastecer o carro, comentei com o frentista: “Eu só gosto de abastecer nesse posto porque tem os funcionários mais gentis da cidade.” O homem olhou sorridente: “A senhora não imagina como é bom ouvir uma coisa dessa.” Percebi, naquele momento, a força do elogio sincero, do afeto, da alegria. Eis em que acredito: amar sem limites, sem reservas. Sempre. Eternamente.

4 ideias sobre “À beira do abismo

  1. A violência sempre fez parte do nosso cotidiano e como o acesso à informação cresceu vivemos ainda mais apavorados com os acontecimentos.
    Concordo que o Bem deveria ser noticiado na mesma proporção que o Mal o é, porque assim veríamos que felizmente o Bem ainda prevalece no mundo.
    Cabe a cada um de nós semear o Bem, de forma simples, no nosso dia a dia, tratando bem o outro, sendo cortês no trânsito, cumprimentando educadamente as pessoas, sendo simpática, enfim. É o começo.

  2. Olá Márcia,
    Seu texto de hoje nos mostra o horror em que estamos vivendo. Eu, já não assisto noticiário em televisão. Também não leio jornais. Não por querer viver longe da realidade. Mas, por não ter estrutura!
    Me preocupo terrivelmente com os jovens, os que estão nascendo agora.
    Não sei o que será das nossas crianças!
    Não lembro de ter ouvido se falar em tanta barbaridade na época das palmadas.
    Felizmente ainda existe o bem. É pouco divulgado, mas existe. Tenho tido oportunidade de ver isso, nas raras vezes em que vou à rua…
    Vivemos numa luta constante do bem contra o mal!
    Beijos

  3. Márcia.
    Como sempre, muito bom o seu texto.
    O que vemos a todo momento são atos bárbaros, selvagens, animalescos. Dizendo animalesco, estou rebaixando os animais; que eu saiba, os animais não matam seus semelhantes por prazer ou ódio, eles fazem por necessidade, pela sobrevivência. Entretanto nós , espécie Homo sapiens, matamos nossos semelhantes por ódio infundado, por despeito. por inveja. Não somos superiores aos animais!
    Entretanto, essa ideia derrotista não deve ser a regra. O mal não é maioria, Deus é grande, não permitiria isso; se bem Ele nos dá plena liberdade para optar. Felizmente, muitos optam pelo bem, sentem-se felizes em estender as mãos aos necessitados, em minorar as dores de seus semelhantes.
    Outro dia, passou na televisão entrevistas com pessoas do bem, graças a Deus, como é grande esse “batalhão”!
    As pessoas gostam de imitações, logo, os bons exemplos deveriam ser mais divulgados, enquanto as barbaridades apenas noticiadas, sem muito estardalhaço.
    Concorda?
    Abraços de Terezinha

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