Amor próprio ou orgulho?

Há pouco tempo, escrevi um texto em que me definia como uma pessoa com “sangue de barata”, “pouco amor-próprio”, do tipo que leva desaforo para casa. Bem, não exatamente do tipo que leva desaforo para casa, mas é um tanto improvável que se escute minha voz aos berros. Aliás, detesto voz alta.

Rejeito uma vida de culto a mágoas e rancores. Não significa que eu seja poupada de minha cota de experiências negativas, que não seja eventualmente destratada ou não fraqueje e seja mesquinha. Faz parte da humanidade. Fiz, contudo, minha opção por uma vida de paz e amor. Eu me recuso a sintonizar a emissora da mágoa e do ressentimento. Após ter experimentado as profundas e arrebatadoras alegrias que o perdão sincero propicia, não vislumbro nem desejo outro caminho. A vida é fugaz. Ignoramos o momento da partida e, por tal razão, temos que estar preparados. Sempre preparados. Com o coração puro, sem rancores. Só amor.

Há pouco tempo, caminhava em shopping da cidade quando encontrei uma senhora conhecida e que, há muito tempo, se mantém afastada de sua família. Conversamos amistosamente, fui apresentada à amiga que a acompanhava e, em nossa despedida, sugeri que ela retomasse os laços familiares. Em resposta, ouvi a pérola: “Uma coisa me restou, Márcia. Foi o meu amor-próprio”.

Naquele dia, voltei para casa bastante triste, por diversas razões. A primeira delas, por se tratar de alguém com quem outrora mantive um excelente relacionamento e a quem desejo muita paz. A segunda, por assistir à devastação causada pelo orgulho. Pois, em minha opinião, o que ela chamou de amor-próprio, cabe exatamente no conceito de orgulho.

O que pode afastar uma mãe de seus filhos? Pode uma avó “normal” não desejar conhecer e abraçar seus netos? Nenhuma mãe “humana” rejeita a própria cria. Pode resmungar, discordar, brigar, mas não renega. Em família, às vezes podem ocorrer desentendimentos, mas o amor fala sempre em primeiro lugar. Nenhuma ação dos filhos explica a reação da mãe desnaturada. O que houve? Um telefonema que não foi feito, um comentário fora de hora, pequenos mal-entendidos, que um coração generoso já teria sepultado, alimentam o ressentimento, conduzindo essa senhora a um triste e solitário fim de vida.

Creio que o término de um casamento não transforma em vilões as pessoas com quem antes se dividiu a vida. Se ela toma novos rumos, é necessário preservar as lembranças boas, tudo de valioso já vivido, mesmo que findo. É necessário reconhecer o quanto se é afortunado por ter conhecido e amado todas aquelas pessoas. Se o desfecho de um casamento não pode gerar inimigos, o que dizer dos laços indissolúveis que unem irmãos ou pais e filhos? Nada pode afastar o coração daqueles que o acaso (ou destino, se assim se preferir denominar) escolheu reunir por laços de sangue.

Conservo a esperança de que essa senhora acorde antes que seja tarde demais. Desperte e perceba que a vida tem fim e pode não haver tempo para resgates ou reconciliações. Crendo ou não em vida após a morte ou em paraísos e purgatórios, nenhum bem ou conforto pode ser extraído de tanto orgulho.

É Páscoa, tempo de transformação. Os hebreus fugiram da escravidão no Egito. Cristo ressuscitou. É tempo de renascer e reinventar a própria vida, com mais amor e perdão. Afinal, o que vale mais? Estar sempre com a razão ou amar sem medida?

10 ideias sobre “Amor próprio ou orgulho?

  1. Comadre, concordo com vc. Às vezes o orgulho continua a existir, embora uma das partes procure a reconciliação. Para a outra, o mais importante (e assim o será até o fim da vida) é estar certa e culpar. Não há reconciliação, mas tão-somente reaproximação. Se guarda o passado, não se entrega de vez ao presente e, menos ainda, ao futuro. O orgulho torna essas relações superficiais como espinhos. Finge-se que está tudo bem, pisa-se em ovos, e assim vão levando a vida com a mágoa presente, guardada ali numa cova bem rasa, pronta para a qualquer momento voltar à superfície. Não é amor próprio, é orgulho próprio… Beijos.

  2. marcia que observacao linda amor proprio ou orgulho seria bom que as pessoas tivessem cuidado com seus sentimentos valeu parabens seu espirito ‘e nobre.

  3. Olá Márcia,
    Fiquei encantada com a sua maneira de entender a vida. Ela é passageira.
    Só devemos conservar na mente, as horas agradáveis. As amargas, devemos aproveitar para aprender amar e perdoar.
    Quando a pessoa tem o dom de perdoar, se sente livre e “sacudida”. É aí que começa a viver. Não importa se já esteja no fim.
    Da avó que muito te ama e admira.
    Peró.

  4. Marcia
    Mesmo estando fora do país não podia deixar de reservar um tempinho para ler seu blog e responder.
    Concordo que a vida tem que ser feita de amor incondicional.
    Perdão é o maior dos sentimentos e faz um bem enorme a pesoa que perdoa.
    O perdão nos deixa livre de mágoas ,ressentimentos e sentimentos ruins que só nos fazem mal principalmente fisicamente pois tenho certeza que as doenças são resultado de sentimentos mal resolvidos .
    Sinto pena das pessoas que não sabem perdoar.
    Feliz Páscoa

  5. Márcia
    Nota dez para o texto. Concordo com tudo que você escreveu. Aliás, eu tenho uma crônica com este tema. Depois eu mando para você ver.
    Outro dia, estava lembrando um caso de intolerância em nossa própria família, depois observei que não resta nenhum personagem. Todos se foram!
    Assim é a vida, extremamente efêmera. Nem sempre temos tempo para arrependimentos nem reparações.
    A ordem é amar sempre, não permitir que mágoas e ressentimentos ocupem lugar de destaque em nossa vida.
    Abraços de Terezinha

  6. Marcia, quando se trata de pessoas, cujos vínculos são indissolúveis, ou pelo menos deveriam ser – ascendentes, descendentes e colaterais -,trata-se, sem dúvida de inconcebível orgulho.
    Amor próprio é outra coisa.

  7. Amar sem medida. Sem sombra de dúvidas!
    A vida é muito curta. Porque não optar pelo amor?
    O perdão faz muito bem para todos. Melhor ainda para quem perdoa.
    Que Deus ilumine essa senhora e ela se reconcilie com os seus…
    Seu texto de hoje foi muito comovente Márcia.
    Beijos.

  8. Texto lindo, para reflexão em tempo de Páscoa.
    Os estudos dizem que na hora da morte as pessoas buscam o perdão e a reconciliação. Deixemos o orgulho de lado e busquemos a paz interior que passa sempre pelo perdão.

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