O mestre do suspense

O que há por trás de nossos medos? Eis uma questão complexa que desafia nossa compreensão. A sua investigação faz parte do trabalho desenvolvido por psicanalistas e terapeutas. Apesar da complexidade do tema, é comum que se encontre satisfação em experimentar situações de medo, desde que se acredite estar em segurança. A adrenalina liberada nos momentos de exposição a risco provoca fortes sensações que agradam à maior parte das pessoas.

É o que acontece nos parques de diversão. Seus visitantes buscam experiências que permitam desfrutar da sensação de queda livre, de rotação, de susto, de velocidade, sem que efetivamente haja risco de acidentes. Eles, os acidentes, acontecem, sim. Mas o frequentador de parques não está buscando a dor, a náusea, o mal estar. O seu objetivo é a descarga de adrenalina, que faz disparar o coração, suspender a respiração e colocar todo o corpo em estado de alerta.

Semelhante sensação busca o público de filmes tridimensionais, quadridimensionais e por ai vai. Nesse tipo de espetáculo, a plateia abandona a posição de mero observador da trama e passa a fazer parte da história, ainda que não interfira no enredo. Nos modos mais avançados de interação, é possível sentir o sopro, o vento, o cheiro, o tremor, o sacolejo e outras formas de interação com a realidade exposta na tela. As formas mais modestas de filmes em 3D ampliam a perspectiva visual, dando profundidade às imagens.

Não é necessário, contudo, estar “dentro da cena” para sentir medo. A angústia surge quando a mente associa imagens e ideias aos receios que habitam o inconsciente. Existem filmes que exibem de forma totalmente explícita a realização desses medos. É o caso dos filmes de terror. A violência das ações de Jason e Freddy Kruger não cobram esforço da imaginação. O desastre é exibido da forma mais crua possível. Talvez por isso tais filmes não sejam levados a sério. Eles causam mais susto, asco, repulsa do que medo.

Não é o mesmo caso dos filmes de suspense. Esses são desenvolvidos de forma sutil, com o objetivo de disparar o gatilho e revelar os temores ocultos no inconsciente. O desfecho trágico não precisa ser exibido. Não precisa nem mesmo se concretizar. É o alongamento da expectativa que causa a descarga de adrenalina. A tensão e a incerteza sobre o desenrolar da trama provocam o frisson. Esse foi o gênero que consagrou Alfred Hitchcock.

Há uma fórmula clássica recorrente nos filmes hitchcockianos: um homem inocente é confundido com outra pessoa, passando a ser perseguido. Alguns de seus maiores sucessos, contudo, não têm essa estrutura: “Psicose”, “Um corpo que cai” e “Janela indiscreta” são exemplos de filmes em que não há a figura do inocente injustamente acusado.

Genial em sua arte, Hitchcock era um ser humano controverso. Tornou-se célebre a afirmação do diretor: “Atores  são gado”. Se os atores eram tratados com indiferença, as mulheres sofriam com seu comportamento sádico e manipulador. Além do fato de serem loiras, as estrelas de Hitchcock tinham em comum a beleza, frieza, elegância, discrição, mistério e vulnerabilidade. Estrelaram seus filmes Grace Kelly (“Disque M para matar”, “Ladrão de casaca” e “Janela indiscreta”), Tippi Hedren (“Os pássaros”, “Marnie, confissões de uma ladra”), Ingrid Bergman (“Sob o signo de capricórnio”, “Interlúdio” e “Quando fala o coração”), Kim Novak (“Um corpo que cai”), Eve Marie Saint (“Intriga internacional”), Janet Leigh (“Psicose”), Doris Day (“O homem que sabia demais”).

Os seus filmes tornaram-se clássicos do suspense, valendo a pena relacionar alguns deles:

1. Psicose. Essa é uma história muito conhecida. Uma moça apaixonada rouba 40.000 dólares e foge para encontrar seu amante. Acompanhamos a sua fuga, a paranoia relacionada à polícia e a parada no famoso Bates Motel, por conta de uma tempestade. Ali, ela encontra a “hospitalidade” de Norman Bates, psicopata que mora na casa ao lado com a “mãe”. Muitos medos são apresentados: medo de cometer um crime, de ser preso, de ser vítima de um psicopata, de decepcionar a mãe. Se Hitchcock não queria que se contasse o restante do filme a quem ia vê-lo pela primeira vez, vou manter a tradição e parar a sinopse do filme por aqui. Mas tenho certeza de que todos estão cansados de saber o que aconteceu naquela pousada…

2. Janela indiscreta. Olha só no que dá ser muito curioso! O fotógrafo famoso quebrou a perna e, durante a convalescença, resolveu bisbilhotar a vida dos vizinhos. Nem a beleza e disponibilidade de sua namorada, vivida por Grace Kelly, conseguiram distrai-lo do que acontecia nas janelas em frente.

3. Um corpo que cai. Em primeiro lugar, adianto que compartilho do medo de altura que afligia o protagonista. É uma história sobre manipulação e controle da imagem feminina. Um roteiro que gira em torno de si. No início do filme, somos apresentados à fobia do personagem de James Stewart. Na segunda parte conhecemos Madeleine, interpretada por Kim Novak, mulher atormentada que desperta a paixão do protagonista e aparentemente comete o suicídio. Depois descobrimos que se tratava de uma farsa que, uma vez descoberta, ela foi forçada a reviver. O manipulador não se importa com os sentimentos da pessoa que ele está moldando. Um filme repleto de personagens atormentados e incapazes de libertar-se do passado.

4. O homem que sabia demais. Um ótimo filme, envolvendo cenas em Marrakesh, suspense, espionagem, sequestro de crianças, Doris Day cantando “Que será será” e uma longa cena em um teatro.

5. Disque M para matar. É uma ótima história que foi refilmada há poucos anos, trazendo Michael Douglas e Gwyneth Paltrow nos papéis principais. Mas não se compara ao original, estrelado por Ray Milland e Grace Kelly. O marido descobre a traição da mulher e planeja matá-la sem incriminar-se. Contrata um assassino, deixa a porta de casa aberta e combina um sinal para autorizar o crime: um telefonema. Mas as coisas não acontecem como planejado e a mulher mata o assassino profissional. O mandante/marido precisa encobrir as provas que apontem para ele.

Bem, são tantos filmes de suspense…

3 ideias sobre “O mestre do suspense

  1. Marcia, você apresenta no texto um roteiro de filmes de suspense muitos bons, embora eu só tenha assistido OS PÁSSAROS. DISQUE M PARA MATAR e PSICOSE.
    Não esqueço, também, de CABO DO MEDO, tendo como vilão Robert de Niro.

  2. Márcia
    Aprecio a sua memória. Eu já assisti à maioria dos filmes aqui apresentados. Entretanto só tenho lembrança de “O homem que sabia demais”
    Como Lucinha, também não sou adepta do perigo, excesso de Adrenalina no sangue não me causa prazer, mas angústia, aflição, pavor mesmo.
    As típicas alterações vitais( taquicardia, taquipneia,sudorese, tremores etc), causadas pela descarga de Adrenalina, dão a sensação de morte iminente, por isso me fazem mal.
    Gosto de me sentir segura, amparada, protegida, mimada…
    Até a próxima. Abraços de Terezinha

  3. Márcia
    Tenho muito medo de situações de perigo. Nunca tive vontade de experimentar nada que represente risco de vida.
    Quando era menina, brincava em balanços feitos no quintal e subia em árvores. Mas tudo com muita cautela. Nunca tive muita coragem de montar em cavalo. Atravessar pontes sempre me deu medo. Andar na Montanha Russa nem pensar.
    Filmes de suspense, só assisto acompanhada e, na hora dos maiores perigos fecho os olhos.
    Só sou muito valente na hora de defender as pessoas que amo. Para defender um filho, viro uma Leoa!
    Beijos.

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