“As crianças da minha infância”, por Terezinha Maria

Após muito tempo sem a participação de colaboradores, publico texto de autoria de Terezinha Maria, médica pediatra, católica fervorosa. São muitos os seus talentos. Hoje conhecemos mais um deles:

“Eu nasci em abril de 1944, quase na metade do século passado, entretanto as inúmeras mudanças ocorridas no mundo nesse período me fazem sentir uma centenária. A evolução foi extraordinária. Houve mudanças substanciais em todos os níveis. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”, assim diz a letra da música.

Vejamos se não tenho razão! Li outro dia em um noticiário sensacionalista, o fato de uma gestante percorrer vários hospitais e todos recusarem internar a moça, dizendo que ainda não estava na hora. Há uns anos atrás, ela ficaria em casa, esperando a hora. A parteira de hora em hora ficaria pondo panos quentes na barriga para aumentar as contrações e “esquentar a dor.” A imagem de Nossa Senhora do Bom Parto, (que estava sempre presente nesses momentos), recebia muitas velas e orações. Sendo católicas, essas senhoras tinham fé de que a mãe de Jesus lhes daria força e coragem para suportar as dores do parto e, após a consumação, ainda passaria a mão em suas cabeças para que esquecessem os sofrimentos.

Em pouco tempo tudo voltava ao normal, e ficava só a felicidade de usufruir do convívio com o novo ser e a gostosa tarefa de lavar fraldas. Não se falava em fraldas  descartáveis. Aliás, o termo “descartável” ainda não existia.

Não estou advogando este tipo de parto (sem assistência médica), pois nesta época a mortalidade materno- fetal era muito alta.

Os cuidados com o umbigo do bebê eram por demais absurdos, pois não se tinha noções de higiene. Nunca ouviram falar em bactérias. E mesmo que se falasse! Uns bichinhos tão pequenos que ninguém conseguia enxergar! Será que existiam mesmo?

Por conta da ignorância reinante na época se colocava todo tipo de imundície no coto umbilical, só uns poucos mais esclarecidos faziam a antissepsia com Iodo ou Álcool. Resultado: ocorriam muitos óbitos por tétano neonatal, também conhecido à época, como “doença do sétimo dia”, com mortalidade altíssima (quase 100%).

Outro dia ouvi umas crianças cantando uma música bem democrática e também bastante realista, que falava mais ou menos assim: “Todo mundo tem pereba, marcas de bexiga”. Falava também de coceira, lombriga e piolhos. Tudo leva a entender que não somos uns melhores que os outros. Todos nós temos o nosso lado podre, o nosso Tendão de Aquiles. A nossa fraqueza, a nossa vulnerabilidade.

As crianças da minha infância tinham tudo isso e muito mais. Não havia vacinas. Todos eram vulneráveis às doenças infecto contagiosas. Não havia água tratada, bebia-se água de fontes poluídas. Como conseqüência, as parasitoses intestinais estavam presentes em todas as barrigas. Havia crianças altamente infestadas. Quando eu tinha 10 anos fui a um velório de uma criancinha vítima de oclusão intestinal por áscaris. O menino já estava no caixão e os vermes iam saindo por todos os orifícios naturais. Esta cena própria de filme de terror, ainda permanece viva em minha memória.

Nossa região era usineira e chupávamos muitas canas de açúcar sem a devida higiene bucal, como conseqüência, as cáries apareciam muito cedo, ainda nos dentes decíduos. Como sofríamos com dores de dentes! Nesta época não havia profilaxia de cáries nem odontólogos. Os poucos dentistas que apareciam (alguns sem habilitação), só faziam exérese dentária para colocar prótese. As crianças não podiam colocar prótese, então ficavam desdentadas até os dezoito anos.

Quero ressaltar que minha família era mais esclarecida, pois meus pais gostavam de ler e, na medida do possível, se mantinham informados. Já sabiam da existência dos micróbios nas mãos sujas, da necessidade de beber água potável, de escovar os dentes e de ter uma alimentação rica em verduras e frutas. Resultado: em nossa família todos se criaram apesar da altíssima taxa de mortalidade infantil na região. Quase diariamente passavam por nossa porta cortejos fúnebres de “anjinhos”, vítimas de infecções respiratórias, infecções intestinais, desidratação, desnutrição etc. Tudo em conseqüência da ignorância e do baixo nível sócio-econômico.

Uma coisa é certa, os sobreviventes são fortes, inteligentes e corajosos. O contato direto com a natureza fortaleceu o sistema imunológico de tal modo, que a maioria deles morre de velhice.

Felizmente, atualmente o panorama é outro. Há água tratada para quase todos. A maioria das casas tem instalações sanitárias. A Saúde Pública é uma realidade, são realizadas campanhas de vacinação, campanhas educativas e outras ações básicas de saúde. A população tem acesso ao ensino público básico. Com melhoria do sistema de transporte, ficou mais fácil para o pessoal que deseja estudar fora.

Com a melhoria dos padrões sociais, mais empregos e mais educação, os descendentes dos meus contemporâneos já não sofrem como seus antepassados. Atualmente são crianças mais sadias e mais educadas.

Viva o progresso!”

5 ideias sobre ““As crianças da minha infância”, por Terezinha Maria

  1. Tereza,
    Continue enviando suas contribuições.
    Este texto está ótimo.
    Nunca esqueci daquele menino de Seu Zé Emídio e D. Lourdes, já morto, expelindo aqueles vermes.
    Vamos pedir a Deus que tudo melhore, cada dia mais.
    Beijos de Lucinha.

  2. Parabéns minha tia!
    Já progredimos muito em tecnologia e conhecimento, pena que no meio dessa revolução muitos valores imprescindíveis para o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente sadia e feliz estão se perdendo … Viva o amor, a amizade, a família, a solidariedade, a compaixão (…)!!!!!!!!!!

    • Peró
      Concordo plenamente com você. Estamos evoluindo, mas precisamos crescer interiormente, adquirir os valores que trazem a verdadeira felicidade Isso só vamos conseguir com a paz de ter o dever cumprido e a certeza de ter contribuído para fazer o mundo melhor.
      Ao retirar uma casca de banana do meio da rua, você já está dando a sua contribuição. São gestos muito simples. Vale a pena!
      Abraços de Terezinha

  3. Márcia
    Muito obrigada por publicar as minhas “mal traçadas linhas”.
    Você não foi do tempo das “mal traçadas linhas”; era um chavão presente em quase todas as cartas. Entretanto as letras eram bem legíveis, as pessoas se esmeravam na caligrafia.
    Obrigada também por falar dos meus “talentos”. É bondade sua. Já que você aprovou, de vez em quando vou enviar outros textos.
    Um abraço de Terezinha

  4. Que bom que houve melhoria no sistema de saúde do nosso país, embora saibamos que ainda falta muito a ser feito, especialmente para os menos favorecidos economicamente.

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