A vida nas cidades

Segundo Aristóteles. “o homem é um animal social”. O que significa isso? Que somos carentes por natureza e precisamos conviver com outros seres humanos para alcançar a plenitude.

Na visão aristotélica, a vida em sociedade decorre, portanto, da própria natureza humana. Construímos cidades e ali desenvolvemos atividades que deveriam ter por finalidade o conforto individual e o bem comum. Sendo assim, a limpeza das ruas, a submissão às regras de trânsito, o respeito à propriedade alheia, o cuidado com os bens públicos, tudo se explica e justifica pela necessidade de convivência em grupo.

Em diálogo travado com Werner Heisenberg,  há quase um século, o físico Niels Bohr comparou os princípios da vida prussiana – a subordinação da ambição individual à causa comum, a modéstia na vida particular, a honestidade, a incorruptibilidade, o cavalheirismo e a pontualidade – aos valores caros aos dinamarqueses, que preferiam dar mais espaço ao indivíduo, seus sonhos e projetos. Pontuou Bohr que, enquanto o modelo prussiano baseava-se no cavaleiro teutônico, que fez votos de pobreza, castidade e obediência, os dinamarqueses preferiam os heróis das sagas islandesas que, para não submeter-se ao rei, abandonaram a Noruega, partindo para a liberdade na Islândia. Ao final, Bohr ressalvou os perigos da obediência cega.

Dois sólidos conceitos se contrapõem: a disciplina prussiana e a liberdade dinamarquesa. E, em meio a tanta cultura europeia, aportamos em terras tupiniquins, a querer encontrar a melhor via de convivência nas cidades. Parece um pouco fora de discussão que o brasileiro é avesso a questões disciplinares. Tal raciocínio nos afasta, portanto, do modelo prussiano. Seríamos, então, todos dinamarqueses? Ledo engano. A liberdade tão elogiada por Bohr tem apenas um limite, que, contudo, é artigo raro por aqui: o respeito pelo outro.

De fato, a triste realidade das cidades brasileiras evidencia que a consideração pelo direito alheio tem pouca ou nenhuma importância por cá. Claro que somos todos capazes de nos indignar contra a violência, a corrupção, a desonestidade. Vamos às ruas, carregamos cartazes, compartilhamos mensagens de protesto. Seremos, todavia, tão impecáveis em nossa conduta diária? Ou somos fervorosos adeptos da lei do Gerson, buscando sempre, a todo custo, levar vantagem em tudo?

Somos livres e temos o direito de reivindicar melhores ações daqueles que nos governam. Mais do que um direito, diria que temos o dever de exigir daqueles que detém o poder as melhores ações para o bem comum. Isso não nos salva, porém, da obrigação de sermos, nós mesmos, guardiões dos valores que pregamos, exercitando no trabalho, na escola, no trânsito, tudo o que estamos a exigir nas ruas e nas redes sociais.

Palavras bonitas são sempre bem-vindas. Amo as palavras. A nossa vida em sociedade, porém, exige mais de nós. Precisamos refletir: quem quer sempre levar vantagem em tudo está em posição de cobrar alguma coisa de alguém? Por que xingar o motorista ao lado por fazer a manobra arriscada que você mesmo pretendia executar? Podemos exigir apenas aquilo que praticamos diariamente.

Coerência e consistência de valores nos mantém a salvo da hipocrisia. E a hipocrisia é, sim, um mal a ser combatido em qualquer circunstância.

2 ideias sobre “A vida nas cidades

  1. É assim mesmo Márcia. Todos querem levar vantagem em tudo. Quem pensa diferente é considerado otário, babaca e etc
    Abraços de Terezinha

  2. É verdade, antes de criticar os outros, devemos antes rever nossos atos. Não podemos condenar quem faz coisas erradas, antes de ver o que estamos fazendo.
    Ninguém pode viver sozinho, mas viver em comunidade é um bocado difícil.
    Pois é Marcia, o texto está bem apropriado com o que se vê no dia a dia.
    Beijos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 × três =