A arte de ser vilão

Admiramos os heróis, vibramos com eles e torcemos por suas vitórias. Mas nem só de mocinhos se faz uma boa história. Acolhendo uma visão maniqueísta do mundo, precisamos de um vilão a ser combatido pelo herói.

Existem atores que se especializam em interpretar vilões. Possuidores de grande talento, têm, em seu repertório, a sua cota de mocinhos. É na pele do malvado, porém, que se destacam e brilham. Fico imaginando as suas brincadeiras de infância:

– Vamos brincar de gato e rato?

– Certo, eu sou o gato. – responderia o futuro ator.

Ou então:

– Vamos brincar de chicotinho queimado?

– Eu fico com o chicote. – novamente diria.

Os anos passam e o menino decide seguir a carreira artística. Muitos papéis se sucedem, mas o sucesso vem na pele do mais cruel dos homens. Desde o mais abominável dos oficiais nazistas até o bruxo que de tão mau nem se diz o nome, nada parece difícil para tal especialista. Com isso, não há surpresa ao assistir Fúria de Titãs e descobrir quem interpreta Hades, deus do mundo inferior e dos mortos: Ralph Fiennes.

Nascido em 1962, Ralph Fiennes chegou aos cinquenta anos dominando a arte da vilania. Vilão histórico, mitológico, mágico, nenhum desafio é recusado. Nos primeiros anos da carreira, interpretou o vingativo Heathcliff, em O Morro dos Ventos Uivantes. Aos 31 anos, tornou-se Amon Goth, sádico nazista no filme A Lista de Schindler. E brilhou absoluto ao encarnar o terrível Lord Voldemort, em cinco filmes da série Harry Potter. Num estilo mais sutil, viveu o insensível Conde de Devonshire, em A Duquesa. Gosto tanto de ver a sua face obscura que fico um pouco frustrada ao vê-lo suave, em filmes como O Leitor ou O Jardineiro Fiel.

De família aristocrática, tem um irmão também ator, Joseph Fiennes, o Shakespeare apaixonado. Descobri, por acaso, que eles são primos em oitavo grau do Príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica. Li, ainda, que Ralph Fiennes disse ter experimentado grande satisfação com a reação de medo das crianças diante do Lorde das Trevas. Dei uma espiada na lista dos 50 maiores vilões do cinema, organizada pelo American Film Institute – AFI, e vi que Ralph Fiennes está lá, na 15a. colocação, com o seu desumano e corrupto oficial alemão, comandante de campo de concentração, Amon Goth.

Quem são os outros vilões? Lá vai:

– Em primeiro lugar, Hannibal Lecter, o canibal de O silêncio dos inocentes, brilhantemente vivido por Anthony Hopkins (desse eu tenho medo!).

– Em segundo, Norman Bates, o perturbado estalajadeiro de Psicose, que marcou a carreira de Anthony Perkins (provoca pesadelos!).

– O terceiro lugar foi para Darth Vader, da série Guerra nas estrelas (sei que ele matou o próprio mestre, passou para o lado negro da Força, exterminou milhares de inocentes, mas vilão intergaláctico não dá para levar a sério).

– Em quarto lugar, a Bruxa Malvada do Oeste, do clássico O mágico de Oz (acho que ela já foi minha chefe).

– Quinto lugar para a Enfermeira Ratched, em Um estranho no ninho (como não vi, não posso comentar).

– Sexto lugar para Mr. Potter, do belíssimo clássico de Capra, A felicidade não se compra (o vilão magnata, mesquinho, muquirana!).

– Em sétimo lugar ficou Alex Forrest, do filme Atração Fatal (para essa fulana, matadora de bichinhos de estimação, caía bem uma surra de cansanção).

– Oitavo lugar para Phyllis Dietrichson, em Pacto de Sangue (sempre achei que Barbara Stanwyck nasceu para ser vilã de filme noir)

– Em nono lugar, Regan McNeil, de O exorcista (não vejo filmes de terror, mas sei que ela gira a cabeça em 360 graus).

– Décimo lugar para A Rainha Má, do desenho animada Branca de Neve e os Sete Anões (invejosa, despeitada!)

– Em décimo primeiro, Michael Corleone, interpretado pelo maravilhoso Al Pacino, na trilogia O Poderoso Chefão (tem que ser muito mau para mandar matar cunhado, compadre, irmão…)

– Décimo segundo lugar para Alex DeLarge, no filme Laranja Mecânica (muito mau mesmo, com sua ultraviolência)

– Décimo terceiro lugar para HAL 9000, em 2001, Uma Odisseia no Espaço (como comentar se até hoje não vi o filme inteiro?)

– Em décimo quarto, Xenomorph, em Alien (mais uma vez não consigo levar a sério o vilão de ficção científica)

– Décimo quinto lugar para Amon Goth, interpretado por Ralph Fiennes, em A Lista de Schindler (é de horrorizar a displicência com que o malvado pratica tiro ao alvo com os prisioneiros judeus)

A lista é longa, mas vou mencionar mais alguns vilões:

– Annie Wilkes, fã desvairada, maravilhosamente interpretada por Kathy Bates em Louca Obsessão (cuidado, escritores!)

– Jack Torrance, um louco que se diz escritor, vivido por Jack Nicholson, no assustador filme de Stanley Kubrick, O Iluminado (a cena de abertura do filme é espetacular)

– Max Cady, em Cabo do Medo, em qualquer das versões, com Robert Mitchum ou Robert De Niro

– Reverendo Harry Powell, no filme O mensageiro do diabo, interpretado por Robert Mitchum, outro especialista em vilões.

– Coringa, interpretado por Heath Leadger, em Batman, O Cavaleiro das Trevas (nada engraçado, com aquela maquiagem borrada, criando a todo instante uma nova versão para a origem de sua deformidade, assusta, apesar de ser personagem de quadrinhos)

Não canso de repetir que o mundo precisa de bondade, compreensão, companheirismo, solidariedade e outras coisas boas assim. Mas um vilãozinho na pele de um ator de talento vale a saída de casa até o cinema, não? E para você, qual o pior vilão de todos os tempos?

4 ideias sobre “A arte de ser vilão

  1. Menina, você tem cultura ! Benza Deus!
    Eu leio muito e já assisti muitos filmes, mas não tenho boa memória. Eu também vibrava com o seriado”Os Perigos de Nioka “, entretanto não me lembrava do nome da feiticeira malvada que infernizava a vida da heroína. Mas sou mais velha do que Lucinha, deve ser por isso.
    Outro dia, fiquei sabendo que o nosso cérebro armazena os dados recebidos durante toda a vida. Os dados mais importantes vêm à tona com facilidade, os outros ficam em Stand By. Não me pergunte onde li isso, porque não me lembro.
    Um Abraço para você e para sua família
    De Terezinha

  2. Marcia, não esqueço do vilão de ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, interpretado por Javier Bardem. O filme conta a história de um xerife aposentado, que encontra por coincidência uma grande quantia de dinheiro numa cena de um crime, desencadeando uma perseguição por parte do receptor original do dinheiro na região desértica do oeste do Texas em 1980. É imperdível!

  3. Impressionante como os vilões sempre despertam em nós sentimentos de raiva ou até de medo, mas na vida encontramos pessoas más, egoístas, maledicentes e por aí vai. Na verdade, precisamos perceber o lado vilão de quem nos rodeia e driblar as maldades, porque nos filmes a vilania nos faz refletir sobre o outro, mas quando se trata de realidade nos surpreende e nos assusta.

  4. Márcia
    Seu texto está ótimo, mas hoje está difícil comentar. Sobre cinema não sei nada!
    Quando era menina, eu assistia mais filmes. Daquele tempo só lembro de uma vilã, do seriado Perigos de Nioka, (não tenho certeza se era assim que se escrevia) D. Ágata era o nome da vilã, não sei quem era a atriz. Eu morria de medo quando ela aparecia.
    Acho que fazer papel de vilão é mais difícil que de mocinho.
    Beijos.

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