O primogênito

O seu nascimento já foi uma festa. Era o primeiro filho daquele jovem casal e primeiro neto das duas famílias. Os tios mais jovens tinham idade não tão distante (o tio mais novo era apenas três anos e meio mais velho do que o sobrinho e o tio mais velho, vinte e quatro).

Teve todas as doenças da infância: catapora, cachumba, sarampo, coqueluche… Além de uma bronquite asmática que o acompanhou por toda a vida e que foi singelamente transmitida ao seu filho caçula. Mas, apesar da saúde aparentemente frágil, o menino não tinha nada de fraco. Virou brinquedo nas mãos de seus muitos tios.

Quando estava no interior, vivia com os tios pelos caminhos das fontes ou pedalando ferozmente seu velocípede pelas calçadas do vilarejo. Na cidade grande, adorava brincar com os outros garotos na rua. Jogava bola, corria, saltava. Não era o valentão do baiirro, mas nunca, nunca mesmo, voltou apanhado para casa. Certa feita, chegou com o rosto todo ensanguentado e, ao ver o susto da mãe, foi logo tranquilizando:

– Mainha, não preocupe comigo. O outro menino ficou muito pior.

De outra vez, entrou esbaforido, atropelando as palavras:

– Mainha, se prepare. Vem ai a mãe de um menino todo estropiado que brigou comigo na rua.

De fato, logo chegou a mãe do outro menino, arrastando o filho pela mão e exibindo os machucados da criança.

— Olhe só o que seu filho fez com o meu.

– Sim. Eles brigaram, o seu bateu no meu e meu menino revidou mais forte. A senhora não quer colocar uma Água Maravilha ou fazer logo um curativo no machucado dele?

– Eu quero é saber o que você vai fazer com o seu filho? Está vendo o que ele fez com o meu?

– Jä vi que eles brigaram e estão ambos machucados. O mais forte bateu mais e o mais fraco apanhou mais. A senhora quer que eu faça o curativo em seu filho? Vou buscar o material. Ou precisa levar a um médico?

– Não. Você tem que disciplinar seu filho. Ele não vai apanhar? Tem que dar uma surra nele!

– Como é? Desculpe, mas não vou bater em meu filho.

– É? Não apanha em casa e depois vai apanhar da polícia!

A mãe da criança machucada foi embora, arrastando o filho, revoltada com a reação da outra.

Em outra ocasião, o garoto, ainda pequeno, com apenas três anos, brigou com o neto de uma vizinha. Chegou em casa chorando:

– Mainha, fulano de tal é um “indiota”.

– Não fale assim. Fale certo: fulano de tal é um idiota, entendeu? Idiota. Repita: fulano de tal é idiota. – corrigiu a mãe, preocupada com a incorreção linguistica do filho.

Passaram muitos anos e ele cultivou grandes amigos em toda a parte: escola, vizinhança, Exército… Dedicou-se a quase todos os esportes e, apesar de não ser alto, foi campeão de vôlei, salto em distância, salto em altura, corrida, judô, natação, além, é claro, do futebol, onde ocupava o posto de goleiro (tal como o Menino Maluquinho de Ziraldo). As meninas do colégio faziam fila atrás do gol, para ver as pernas daquele goleiro, que saltava como um sapo.

Grande amante de festas, conheceu aquela que viria a ser sua esposa da maneira mais pitoresca possível: na Quarta-feira de Cinzas, após os festejos momescos. Já na hora de ir embora, ambos cansados, sujos e suados, dando por encerrado o Carnaval, sentaram na calçada, criando coragem para voltar para a casa após uma semana de festa. Conversa vai, conversa vem, trocaram telefones e iniciaram uma bela história, coroada com dois filhos lindos.

Cozinheiro insuperável, churrasqueiro de renome, animado, amigo, trabalhador, disposto, brincalhão, responsável, sempre foi o favorito dos tios, que nunca cansaram de narrar os seus feitos. Hoje mais velho, mais gordo e com menos cabelo, continua a ser a alegria das festas, sinceramente preocupado com o bem-estar de todos.

Ele provavelmente não sabe, mas sempre foi fonte de muito orgulho para os irmãos, que, tímidos, sonham em ter um quinto de sua popularidade.

2 ideias sobre “O primogênito

  1. Adorei!
    Este é o nosso muito amado, venerado, adorado Marcelo.
    Sempre foi uma criança bastante corajosa. Peralta que só ele! Mas com um enorme coração. Não agredia ninguém, todas as vezes que bateu foi para se defender ou defender alguém.
    Podemos dizer que Marcelo é o nosso herói.
    Bem, esquecendo toda modéstia, digo: Tenho três filhos de ouro.
    Beijos.

  2. Já conhecia essa história que você conta com muito orgulho, não é mesmo? Parabéns pelo irmão.Só não tenho inveja de você porque cinco irmaozinhos maravilhosos também, viu amiga?

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