A última página

Li no Facebook: “Lembre-se que o mocinho morre no final desse filme (sua vida)”.

O que fazer durante esse lapso indefinível de tempo que nos é concedido nesse mundo? Qual a nossa missão? Existe uma missão? Existe algum sentido em nossa existência? As respostas religiosas só se prestam àqueles que nelas crêem.

Voltamos ao existencialismo e a Sartre: a existência precede a essência? Eu sou aquilo que construo para mim? Existe algo além do que eu crio? Se eu sou aquilo que penso, aquilo em que me transformo, de que maneira o pensar dos outros afeta a minha essência? Seria tão bom ter respostas para essas perguntas, mas sempre teríamos boas razões duvidar de sua veracidade.

Há, sem dúvida, duas maneiras bem distintas de viver: sempre refletindo sobre a vida ou não pensando em absolutamente nada. Nenhuma das duas parece ser a ideal. A uma, porque, ao ocupar a vida em reflexões, corremos o risco de não vivê-la, de vê-la passar enquanto pensamos a respeito. E, pelo outro lado, ao não pensar sobre a vida, perdemos a chance de corrigir o rumo, por não identificarmos o que nos afasta do nosso ideal de felicidade.

A felicidade é vista como uma meta, um ponto de chegada. Pensar dessa maneira é muito desanimador. Se a felicidade fosse apenas o objetivo a ser alcançado, passaríamos a vida num estado de permanente ansiedade e insatisfação, ocupados em caminhar até esse ponto. Isso porque a felicidade estaria no final da linha.

Por outra via, quando atingíssemos essa meta, teríamos que lidar com a falta de perspectiva da vida que ainda estaria à frente. Dizer que felicidade é o ponto de chegada, significa dizer que, estando ali, não se tem mais aonde ir. Chegamos no ponto final. Alcançado o Nirvana, já poderíamos morrer. Não dá para concordar com essa ideia. A felicidade não é uma meta a ser alcançada. A felicidade é a estrada. A felicidade está no dia-a-dia, no cotidiano.

Fico refletindo sobre as ideias de Thoreau. Será que o homem que ocupa a maior parte do seu tempo a “ganhar a vida”, ao final está ganhando ou perdendo? “Ganhar a vida” seria um fim em si mesmo? O que fazer com o que resta do nosso tempo quando não estamos ocupados com essa labuta?

Eis uma grande questão a ser ponderada: o trabalho enobrece e dignifica, mas a vida não é feita só de trabalho. O trabalho deve ser prazeroso, pois, como ele ocupa uma parte considerável de nossas vidas, temos que realizá-lo dentro de nossa visão de felicidade. A retribuição financeira pelo trabalho é justa e desejável, mas não basta para transformar o trabalho em fonte de realização.

Há, ainda, o tempo livre e esse deve ser destinado integralmente à felicidade. Não à busca ou à construção da felicidade. Isso é bobagem. Ninguém vai ser mais feliz quando estiver morando numa casa maior, quando for aprovado no concurso almejado ou quando casar com a pessoa amada. A pessoa é feliz porque decide ser feliz hoje. A felicidade é escolha e, em geral, só temos a percepção de tê-la experimentado depois que o momento já se foi.

Não devemos nos preocupar em buscar a felicidade, pois ela não está escondida em nenhum lugar. Ela está sempre aqui, dentro de nós, ao nosso lado, acima, abaixo. Quem decide ser feliz, muda as lentes com que olha a vida. Exige menos, cobra menos, deseja menos. Perdoa mais, abraça mais, agradece mais, sorri mais.

A felicidade está na alma pura, na firme intenção de desafiar o mal. De fechar as portas à intolerância, ao preconceito, ao rancor. Perdoar, perdoar, perdoar. Não é fácil, mas não existe alternativa: só no perdão é possivel encontrar a paz e a felicidade.

A certeza da finitude da vida, regra geral, nos causa muita angústia, mas não deveria. Sendo inexorável, a “indesejada das gentes” representa um marco que, conforme a crença de cada um, pode separar de uma nova vida, da transição para o plano espiritual ou apenas do fim. Independente do que se acredite estar atrás e além do muro, não há dúvida de que a morte é uma divisor de águas. Como lidar com uma certeza tão absoluta?

É possível passar toda a vida em busca de prazeres sensoriais. É possível dedicar a vida à espiritualidade ou à ciência e ao estudo. Qualquer que seja a escolha, uma coisa precisamos ter em mente: um dia, a vida vai acabar. Então o segredo é tratar de ser feliz agora, na caminhada, sabendo que a responsabilidade pelas escolhas acompanha o indivíduo durante toda a sua jornada. E, desse modo, poder encerrar a última página com uma frase que resuma o livro de sua vida: E FOI FELIZ SEMPRE…

4 ideias sobre “A última página

  1. Marcia,
    acredito que tudo depende da lente com a qual estamos enxergando a vida, podemos procurar o lado das coisas, agradecer por tudo o que temos ou reclamar por tudo aquilo que não temos.
    Eu prefiro agradecer pela minha vida, pela minha família, pela saúde, pelos amigos pelo emprego … O importante é ser feliz sempre!
    Beijos!

  2. Excelente texto Márcia. Faz muito que não lia um texto tão verdadeiro e esclarecedor a respeito de vida e felicidade. Parabéns!

  3. Márcia,
    Muito profundo o texto.
    Acredito que não existe uma receita de felicidade. O que faz uma pessoa muito feliz pode não funcionar para outra.
    Só o fato de estar com saúde, ter muitos amigos, saber que os meus entes queridos estão bem, já é motivo de muita felicidade para mim.
    Beijos.

  4. O mais acertado é se viver o presente como se fosse o único momento na vida, pois o ontem já passou e o amanhã ninguém sabe se acontecerá, valorizando cada minuto da vida.
    Nunca me esqueço do comentário de Christopher Reeve, que, ao se encontrar tetraplégico, percebeu que durante sua glamurosa vida não dera a importância devida ao canto dos pássaros, o amanhecer,
    belezas que a natureza nos proporciona diariamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

um × um =