La liberté

Vira e mexe falamos em minimalismo, simplificação da vida etc. Mas, se pensarmos bem sobre tudo isso, esse despojamento traz a reboque algo muito maior e mais importante: a possibilidade de experimentar a liberdade em nível mais amplo.

Já foi dito que liberdade implica em responsabilidade pelas consequências das escolhas. Sendo assim, é de se pensar se as decisões tomadas diariamente são livres. Provavelmente não. A maior parte das ações humanas são motivadas pelas convenções sociais, pela expectativa do grupo e pela necessidade de aprovação/aceitação. Até parece ser coisa de adolescente, mas não é.

Nesse mundo moderno, globalizado, conectado instantaneamente, a tendência é a uniformização das pessoas. Tal um grande rebanho, corre-se o risco de perder a identidade e seguir a multidão, acreditando que o bom e o certo é aquilo que a maioria deseja ou pensa desejar. É tema recorrente na ficção científica a transformação do ser humano em máquina ou coisa similar. Essa transmutação é muito mais sutil do que retratada na literatura e no cinema.

Um exemplo: ao procurar uma casa nova, ouço todos os corretores de imóveis anunciando, maravilhados: “Eles transformaram a dependência de empregada em um closet e abriram o terceiro quarto para a sala, transformando em um home” (home-theater, creio!). Funciona assim: a felicidade passa por um cômodo inteirinho cheio de roupas, bolsas e sapatos. E, além de um televisor em frente à cama, é necessário ter uma grande TV (mais de 50 polegadas) no famoso home-theater. Logo para mim, que passo dias sem ligar a TV… Mas o que chama a atenção em todas essas casas é a inexistência de espaço para acomodação de livros. Porque a “vida boa” para os padrões modernos não contempla esse prazer introspectivo e analógico. A felicidade está no consumo, na interatividade, na tecnologia, na fartura…

Mas, voltando ao assunto, liberdade é ser, não parecer, nem tentar igualar-se a outro. Amar o que se aprecia, buscar dentro do peito os seus desejos. E nada pode ser mais libertador do que a simplificação da vida. Em todos os seus aspectos. Comer o que é mais natural, andar a pé, tomar banho frio. A quem deseja tal vida, um aviso: não é fácil. Mas se fizer de coração, valerá a pena. Ser é ir contra a correnteza, remando para o lado que se quer. O limite da liberdade é a capacidade de assumir os resultados que podem vir das escolhas feitas.

Na ópera de Bizet, mais do que a sua sensualidade, a proposta mais irresistível feita por Carmen a Don José foi aquela que acenava para a mais ampla liberdade. Abandonar a vida militar e, aderindo ao grupo de salteadores ciganos, viver a vida nas montanhas:

Le ciel ouvert, la vie errante,

pour pays tout l’univers, et pour loi ta volonté!

Et surtout la chose enivrante:

la liberté! la liberté!

(Céu aberto, a vida errante,

por país todo o universo, e por lei a sua vontade!

E, especialmente, a coisa inebriante

Liberdade! Liberdade!)

Uma ideia sobre “La liberté

  1. Márcia,
    No seu texto você diz que liberdade é ser, não parecer, nem tentar igualar-se a outro.É isso mesmo:”Amar o que se aprecia, buscar dentro do peito os seus desejos.”
    Sempre defendi a liberdade. Liberdade com responsabilidade.
    Beijos.

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