Você já foi à Bahia?

Em geral, às vésperas da Semana Santa, as pessoas correm aos mercados em busca de ovos de chocolate. Na Bahia, não. Oh, terrinha que eu amo… Aqui disputamos o quiabo, o peixe, o camarão, as castanhas, o dendê…

Sexta-feira Santa. Se fôssemos pensar no significado da data, esse deveria ser um dia de jejum, recolhimento, oração. Na Bahia, porém, as coisas não funcionam assim. E o baiano, com a sua criatividade insuperável, descobre o caminho que transforma o feriado de sacrifício numa festa pantagruélica. O respeito religioso é garantido, pois não se come carne vermelha. E quem precisa? A nossa culinária é repleta de delícias à base de frutos do mar, como caruru, vatapá, moqueca de arraia… Até os alérgicos a crustáceos, como eu, dão um jeitinho de provar a comida dos orixás. As famílias se reúnem em torno da mesa, fartando-se com as maravilhas da comida baiana. É dia de rever parentes, colocar o assunto em dia.

E assim a fama da comida baiana viaja… Há alguns meses, recebemos um paranaense em primeira visita à Bahia. Ao desembarcar no aeroporto, foi logo perguntando:

– Márcia, o que é acarajé?

– Para simplificar, o acarajé é um bolinho feito de feijão fradinho e cebola, frito em azeite de dendê.

– E quando vamos comer um acarajé?

– É pra já. – respondi.

Consciente de minha responsabilidade, pensei: “Onde ele pode comer um excelente acarajé e conhecer um pouco o que é Salvador?” Pensou no Bonfim? Na Ribeira? No Rio Vermelho? Nada!!! Rumamos para o bairro de Itapuã e, após enfrentarmos uma longa fila, sentamos em torno de uma mesinha plástica, comendo acarajé e cocada-puxa e tomando Coca-Cola. Mais soteropolitano impossível.

Quando contei a meus colegas, eles disseram: “Em Cira? O acarajé é bom, mas aquele largo é muito baixo astral”. Discordo. O que eu deveria mostrar ao turista? O acarajé da Perini? Desinfectado? Asséptico? Ali, no Largo de Itapuã, pudemos respirar a deliciosa fumaça que saía dos ônibus lotados que passavam bem pertinho da calçada. Desfrutamos, ainda, da música que tocava estridente numa barraca ao lado. Pablo, é claro! Em Itapuã, naquela tarde de sábado, só rolava arrocha.

E o paranaense a pensar em Dorival Caymmi: “Passar uma tarde em Itapuã. Ao sol que arde em Itapuã. Ouvindo o mar de Itapuã. Falar de amor em Itapuã.” Esse Caymmi só podia estar falando de outro lugar…

A verdade é que a Bahia agradou tanto que ele, durante os dez dias que passou na cidade, diariamente procurava uma banca de acarajé, tornando-se mais baiano que os nascidos na “terra de todos os santos” e enfrentando o dendê com uma audácia que os locais não possuem. Ao final de sua viagem, já tinha sua baiana favorita. “A morena mais linda que já vi na vida”. Infelizmente a moça não apareceu no local nos dias seguintes e ele partiu sem rever sua musa. Um bom motivo para voltar à Bahia e tentar descobrir o que é que a baiana tem…

É uma pena que eu não saiba preparar essas comidas deliciosas. Se depender de mim, esse almoço terá apenas a pipoca, a banana frita, o arroz branco, a farofa de azeite, a cana e a rapadura…  Fico devendo a receita dessa Sexta-feira Santa.

3 ideias sobre “Você já foi à Bahia?

  1. Márcia,
    Gostei muito do assunto de hoje. Cresci vendo todo esse movimento de comida na Sexta Feira Santa, mas nunca aprovei. No lar que construí, não fazemos jejum, mas também não comemos tanto como se fazia na casa dos meus pais. Nos limitamos a comer o peixe. Sempre achei que o grande banquete deveria ser no Domingo de Páscoa.
    Feliz Páscoa!

  2. Márcia
    Nós, aqui não fazemos os quitutes tradicionais da semana santa, entretanto não conseguimos jejuar, ao contrário, a proibição exacerba o nosso apetite.
    Aproveito a oportunidade para desejar uma Feliz Páscoa para você e todos os seus
    Abraços de Terezinha

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