Memória revivida (Sobrecoxas com mel)

Casaram-se muito jovens, aos 22 anos, e foram morar na Capital. A casinha, muito modesta, era a última daquele beco. Aliás, beco não descreve bem a escadinha íngreme que levava até o ninho dos pombinhos. Em frente à casa, apenas algumas bananeiras. Eles desciam e subiam diariamente a escada até a casa que nem trinco tinha. Fechava-se com uma tramela. Uma cama, uma mesa, dois bancos, um fogão. Não havia muito mais a ornar aquele que, para eles, era o seu palacete.

Os anos passaram. Eles progrediram, procriaram e, enfrentando todos os desafios da vida, completaram 45 anos de casados. Sempre recordavam o seu primeiro lar. Romântica, ela dizia: “como será que está a nossa casinha? Será que mudou muito?” Às vezes, passavam em frente à entrada do beco, que mantinha a mesma aparência, mas sempre adiavam o encontro com o passado.

Certo dia, após visita a um parente que morava na vizinhança, resolveram  visitar a primeira casa. De fato, a entrada permanecia inalterada. A escadinha, contudo, deu lugar a uma rua asfaltada, com casas construídas em todos os lados. Que bananeira, coisa nenhuma… E, no local onde, quase crianças, iniciaram a sua família, encontraram um botequim onde, ao som de um pagodão, algumas moças com shorts microscópicos rebolavam até o chão, chão, chão…

É… Tem lembranças que devem ser conservadas como tais, apenas no pensamento… Como o sabor da comida feita pela mãe… Cabe, então, criar novas memórias, como essa receita muito modesta de frango agridoce.

Acomode oito sobrecoxas  de frango em um refratário. Em um recipiente misture quatro colheres (sopa) de mel, duas colheres (sopa) de molho de soja (shoyu), duas colheres (sopa) de mostarda, sal e pimenta-do-reino a gosto. Regue o frango com esse tempero e deixe descansar por uma hora. Cubra com papel-alumínio e leve ao forno preaquecido por cerca de quarenta minutos. Na metade do tempo, vire os pedaços de frango e retire o papel-alumínio. Quando estiver assado e dourado, retire o refratário do forno, incline-o e usando uma colher, transfira o molho que se formou no refratário para uma panela. Adicione uma xícara (café) de água e duas colheres (sopa) de maionese. Leve ao fogo, mexendo até reduzir. Sirva este molho com o frango.

6 ideias sobre “Memória revivida (Sobrecoxas com mel)

  1. O poeta nos conta: “John o tempo andando mudando com a gente”. O tempo muda, os lugares mudam, e muitas vezes mudam para pior. Nossa Vila, outrora pacata, hoje com altos índices de criminalidade. Porém não tiram os momentos e as lembranças de momentos vividos. Parabéns Marcia!

  2. São bem vividas essas vidas para se tornar uma bela história contada por vc. Não importa o tempo está no relógio da vida. Abraços.

  3. Por isso é que é de bom alvitre não se retornar àquela vila aonde se nasceu, quando você tem ciência de que profundas mudanças ocorreram ali, sobretudo no que diz respeito ao índice de criminalidade!

  4. Márcia
    Suas histórias são verídicas e bonitas. Eu acho que conheço os personagens. A vida deles é um exemplo a ser seguido.
    Que Deus continue abençoando-os, é o que desejamos
    Abraços de Terezinha

  5. Márcia,
    Esta história é mais linda do que se pode imaginar. Começaram a vida com tanta alegria e no entanto os únicos bens que possuíam eram : Amor e Esperança. Graças a Deus esta história continua muito bonita.
    Gostei da receita, pretendo executá-la, para servir a algumas pessoas muito exigentes que já reclamaram de uma receita muito especial que servi num outro dia. Isso já foi relatado aqui. Com esta receita sei que vai dar certo. Não haverá reclamações, só elogios.
    Beijos.

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